CAPA DO MÊS:
SUELI NEMEN
QUANDO O PERFUME SE TRANSFORMA EM ARTE E MEMÓRIA

por: SÉRGIO OLIVER

Apaixonada por livros, história e, principalmente, perfumes, a bibliotecária Sueli Nemen encontrou uma maneira singular de unir todas essas paixões. Ao longo dos anos, ela reuniu uma coleção impressionante com mais de mil frascos de perfumes, cada um carregando não apenas uma fragrância, mas também uma história, uma lembrança, uma estética.

Foi desse amor profundo que nasceu a exposição “PERFUME: História e Arte”, um projeto curado com extrema sensibilidade e bom gosto, que chega à sua quarta edição como um verdadeiro sucesso de público e crítica. Mais do que uma mostra de frascos raros e elegantes, o projeto conduz os visitantes por uma viagem no tempo através da perfumaria desde suas origens até os dias atuais.

Nesta entrevista, Sueli compartilha os bastidores dessa jornada encantadora, fala sobre sua relação com o universo dos perfumes e revela como transformou uma coleção pessoal em uma experiência cultural rica, sensorial e emocionante.

    Como nasceu sua paixão por perfumes e, especialmente, pelos frascos? Houve algum momento marcante que despertou esse amor?

    Desde sempre eu amo perfumes e o ato de perfumar-se, e, aos poucos, passei a admirar também os frascos. Quando meu filho nasceu, eu precisei parar de usar perfumes temporariamente em virtude de uma questão respiratória que ele tinha e, então, comecei a pensar o que poderia fazer com tantos perfumes. E o que existia nos perfumes além da possibilidade de perfumar-se. Passei a pesquisar a história da perfumaria mundial e nacional, a história do vidro, o design dos frascos, o poder do olfato, e o amor pelos perfumes aumentava cada vez mais. Especificamente em relação aos frascos, saber que cada um tem uma história por trás, um motivo para ter sido criado daquele jeito é simplesmente incrível! Mesmo com linhas retas e aparência simples podem ser maravilhosos!

    Sua coleção conta com mais de mil frascos. Como foi reunir tantas peças e qual é o critério para incluí-las em sua curadoria?

    Comecei a coleção com os frascos que tinha quando meu filho nasceu e com a generosidade de amigos, familiares e conhecidos, a coleção aumenta permanentemente. Os critérios são a importância daquele perfume na história da perfumaria, a originalidade e/ou beleza dos frascos, a data de criação daquele perfume e também o valor sentimental que tem…

      A exposição “PERFUME: História e Arte” está indo para a sua quarta edição. O que mudou desde a primeira até agora? Há alguma novidade nesta edição?

      Na verdade, a primeira vez que fiz a exposição foi no início dos anos 2000, mas não tinha esse nome. Consegui realizá-la 6 vezes, mas, depois, por razões diversas, não consegui mais. Logo após o término da pandemia, pensei o que poderia fazer para trazer mais alegria, tranquilidade e prazer para as pessoas. E a única coisa que me vinha à cabeça era realizar novamente a exposição de perfumes… E assim foi…

      Nessa edição, trouxemos o perfume “Eight & Bob” cuja embalagem é um livro, o que para mim, que também adoro ler, faz toda a diferença – além do fato de a exposição ser realizada em uma biblioteca pública. Trouxemos também novamente o perfume do Napoleão Bonaparte, da Farina House, em virtude do sucesso que fez no ano passado.

      Um frasco muito importante também que vem esse ano é o L’Iris, primeiro eau de parfum lançado pela Santa Maria Novella em 800 anos.

      E não posso deixar de citar o perfume Prince Douka, cujo frasco tem um espelho e que faz muito sucesso sempre por isso.

      Como você equilibra sua carreira como bibliotecária com a dedicação à coleção e à curadoria da exposição?

      É sempre um desafio: as bibliotecas públicas têm muitas demandas e exigências. Colecionar requer tempo, atenção e dedicação constantes, sem falar na curadoria que pressupõe destacar as qualidades essenciais e únicas dos frascos e dos perfumes de forma que fiquem singularizados e valorizados como merecem. Conciliar tudo não é fácil, correrias, noites sem dormir, preocupações, mas tudo vale muito! Bibliotecas, livros, leituras mudam as pessoas e  “as pessoas podem mudar o mundo”, como dizia Mário Quintana… E perfumes envolvem, emocionam, contam histórias…

      Existe algum frasco ou perfume com uma história particularmente emocionante ou curiosa para você?

      Shalimar… uma linda história de amor, que completa 100 anos agora em 2025. O mundo precisa de mais amor!

      Qual é o papel da arte na perfumaria, e como isso se reflete na forma como você apresenta sua exposição?

      Ferreira Goulart dizia que “a arte existe porque a vida não basta por si só”.  A perfumaria é uma arte em todos os seus aspectos, uma arte que transcende as sensibilidades, que nos leva ao passado, cria futuros e eleva nosso presente.

      Como o público tem reagido à exposição? Há algum feedback que a emocionou ou marcou especialmente?

      É muita felicidade ver como todos reagem positivamente à exposição. As pessoas se emocionam, se alegram, se entregam às memórias…

      A exposição está organizada em 4 eixos: a coleção de frascos, os textos informativos e livros, as palestras e laboratórios olfativos e as ilhas com as marcas de perfumes das empresas que nos apoiam para que os visitantes possam experimentar os seus produtos. Tudo se completa e faz as pessoas transcenderem.

      Uma moça chorou muito enquanto andava pela exposição, por vezes, era um choro de alegria e, por vezes, de tristeza. Quando me viu, disse que a exposição tinha trazido a vida de volta para ela, que tinha passado a voltar a ter esperança… foi muito marcante!

      Quais são seus planos futuros para a coleção e para a exposição “PERFUME: História e Arte”? Podemos esperar uma quinta edição ainda mais especial?

      Certamente, terá uma próxima edição ano que vem… e mais especial… Ser mais sensorial e mais acessível são desejos…

      Você acredita que o perfume pode ser uma forma de expressão pessoal e cultural? Como isso aparece nas histórias que você compartilha na exposição?

      Certamente, o perfume que usamos nos reflete, nos identifica, nos revela. A história da perfumaria comprova isso.

      Que conselho você daria para quem deseja começar uma coleção de perfumes ou frascos com propósito e sensibilidade como a sua?

      Colecionar é um ato de amor. É uma possibilidade de se entregar,  de compartilhar. Enxerguem o que vai além do que os olhos podem ver! Não desistam!

      Exposição “Perfume: História e Arte” (Fotos: Divulgação)

      Fotos: Renan Ramos
      Publisher e Diretor Criativo: Sérgio Oliver
      Supervisão de texto: André Terto
      Arte gráfica e diagramação: Danni Chris