NOVA EDIÇÃO:

RAFAEL PATACA
A ARTE DE TRANSFORMAR MEMÓRIAS EM FRAGRÂNCIAS INESQUECÍVEIS 

por: SÉRGIO OLIVER

Entre técnica, emoção e memória, Rafael Pataca construiu uma trajetória marcada pela sensibilidade criativa e pela paixão pela perfumaria. Em uma conversa exclusiva para a Revista Olfato, o perfumista técnico criativo da Oak Fragrances compartilha sua jornada desde os primeiros passos na indústria até a criação de fragrâncias que despertam identidade, conexão e experiências inesquecíveis. Com mais de duas décadas dedicadas ao universo olfativo, Rafael revela como arte, cultura, música e vivências pessoais influenciam suas composições, além de refletir sobre o futuro da perfumaria e o verdadeiro significado de criar perfumes com alma.

Rafael, como começou sua trajetória na perfumaria e em que momento você percebeu que criar fragrâncias seria o seu caminho profissional?

Minha trajetória na perfumaria começou em uma grande casa de fragrâncias: a Takasago. Naquela época, no início dos anos 2000, eu ainda cursava Química Industrial na Faculdade Oswaldo Cruz e enxergava a química de uma maneira muito mais técnica do que sensorial. Curiosamente, meu primeiro contato com esse universo já foi marcante desde a entrevista. Aquilo me impactou imediatamente. Era um ambiente muito diferente de tudo o que eu conhecia até então.

Iniciei minha trajetória como assistente da perfumista Gabriela Domecq e, naquele momento, comecei a descobrir um universo onde a química ganhava emoção, identidade e memória. Cada fórmula que eu pesava deixou de ser apenas uma combinação de matérias-primas. Foi ali que aconteceu o meu verdadeiro despertar para a perfumaria.

A cada novo ingrediente, a cada laboratório, a cada perfumista e a cada construção olfativa, eu percebia que estava entrando em um universo do qual nunca mais gostaria de sair. No início, sendo muito sincero, eu imaginava que talvez me tornasse um avaliador. Mas, quando compreendi a dimensão criativa e técnica da perfumaria, essa união entre sensibilidade, construção e inovação, percebi que queria criar fragrâncias.

Hoje, são mais de duas décadas dedicadas ao mercado de fragrâncias e, desde 2014, assino criações presentes no mercado brasileiro e também internacional.

Quais foram as principais referências, estudos ou experiências que ajudaram a construir sua identidade como perfumista?

Minha identidade como perfumista foi construída por meio de pessoas, experiências e uma busca constante por conhecimento. Tive a sorte de cruzar o caminho de profissionais que não apenas me ensinaram técnica, mas também me ajudaram a compreender a perfumaria de forma estratégica, criativa e humana.

A primeira grande referência foi Gabriela Domecq, perfumista com quem iniciei minha trajetória na Takasago. Foi com ela que comecei a entender a disciplina, a sensibilidade e o respeito pela construção olfativa. Na sequência, Márcia Sant’Ana também teve um papel importante ao me desafiar constantemente e ampliar minha visão sobre o mercado e sobre o nível de exigência que a perfumaria requer.

Outra referência marcante foi Viviane Gripp, avaliadora que havia chegado da antiga Quest. Ela trouxe uma visão extremamente refinada de avaliação e leitura de mercado. Quando entrei para a Givaudan, tive contato com um universo ainda mais amplo. Ali, compreendi a perfumaria de maneira global: técnica, comercial, criativa e estratégica ao mesmo tempo.

Pessoas como Lúcia Lisboa, Marilidia Haefeli e Ângela Lemos contribuíram muito para o meu entendimento de mercado, enquanto os desafios propostos pelo então diretor de operações, Carlos Wagner, fortaleceram minha visão de processo, excelência e performance. As interações com o laboratório de aplicação, além da convivência próxima com o time de avaliação, também foram fundamentais para minha formação.

Mas meus estudos foram além das grandes empresas. Busquei conhecimento continuamente por meio de pós-graduações, cursos, estudos on-line, avaliações intensas de matérias-primas e muitas horas dedicadas à reconstrução de fragrâncias e técnicas olfativas. A convivência com perfumistas como Thierry Bessard, Cláudio de Deus e Hernan Figoli também deixou marcas importantes na minha trajetória.

Hoje, na Oak Fragrances, como funciona o seu processo criativo, desde a ideia inicial até a fragrância final?

Meu olhar criativo parte justamente da interpretação do desejo do cliente e da transformação disso em uma assinatura olfativa contemporânea, relevante e conectada ao consumidor atual. Esse processo não acontece de forma isolada. Dentro da Oak Fragrances, existe uma troca estratégica com a diretoria de marketing, especialmente por meio do olhar de Jennifer Csasznik, cujo conhecimento de mercado agrega profundamente ao desenvolvimento criativo.

A interpretação de benchmarks, movimentos de consumo, comportamento das gerações e tendências emergentes faz toda a diferença na construção do briefing e na definição do caminho olfativo mais assertivo. Porque, hoje, não basta criar apenas uma fragrância bonita. É preciso criar “a fragrância”: aquela que conecta emoção, desejo, identidade de marca, performance e relevância de mercado ao mesmo tempo.

Não basta apenas criar algo impactante olfativamente; é necessário compreender qual será a aplicação daquele produto, como determinadas matérias-primas irão interagir com a base e quais ingredientes oferecem melhor estabilidade, performance e funcionalidade dentro daquela categoria específica.

No final, meu objetivo nunca é apenas criar uma fragrância que funcione tecnicamente. O que realmente busco é aquele momento em que o cliente fecha os olhos durante a avaliação e diz: “É exatamente isso que eu imaginei”.

Existe algum tipo de matéria-prima, acorde ou família olfativa com a qual você sente uma conexão criativa especial?

Tenho uma conexão muito forte com construções olfativas mais aquáticas, frescas, levemente terrosas e ambaradas. Sempre fui atraído por fragrâncias que possuem profundidade, textura e uma certa sensação cítrica, algo envolvente, elegante e, ao mesmo tempo, intrigante.

Dentro desse universo, os diferentes perfis de âmbar cinzento, combinados a madeiras sofisticadas e notas de aspecto cítrico refinado, me provocam sensorialmente de uma maneira muito particular.

Mas minha assinatura como perfumista é justamente ser adaptável, mutável e sensível ao universo de cada marca, de cada consumidor e de cada projeto.

O perfume Chica Absoluta, vencedor do prêmio Atualidade Cosmética, marcou sua trajetória recente. O que essa criação representa para você?

Chica Absoluta representa um dos momentos mais simbólicos e emocionantes da minha trajetória na perfumaria. A primeira vez que participei do Prêmio Atualidade Cosmética foi ainda no início da minha carreira, como espectador. Eu trabalhava na Takasago e fui convidado pela perfumista Gabriela Domecq para estar presente naquela noite.

Lembro perfeitamente da dimensão do evento, do palco e da emoção que senti ao olhar tudo aquilo. Inclusive, eu nem tinha um terno para participar da premiação e precisei comprar um especialmente para aquela ocasião. Naquele instante, olhando para aquele palco, pensei comigo mesmo: “Será que um dia eu vou subir ali?”.

Anos depois, já na Oak Fragrances, veio minha primeira inscrição no prêmio. Fomos finalistas e conquistamos o segundo lugar. Lembro de olhar para Douglas Carvalho e Everton Rodrigues e dizer: “Um dia ainda vou levantar esse troféu em nome da Oak”. E foi justamente através de Chica Absoluta que isso aconteceu.

Quando recebi o briefing inspirado em Francisca da Silva, existiu uma conexão muito profunda e imediata. Não enxerguei apenas uma personagem histórica. Enxerguei poder, ancestralidade, coragem, sensualidade, inteligência e permanência. A partir dali, não quis simplesmente criar uma fragrância. Quis construir uma narrativa olfativa que traduzisse sua trajetória, sua força e sua permanência através do tempo.

Receber esse reconhecimento teve um significado muito maior do que ganhar um prêmio. Foi a materialização de uma trajetória construída com estudo, persistência, sensibilidade e paixão pela perfumaria.

Everton Rodrigues e Rafael Pataca

Como você equilibra técnica, emoção e tendências de mercado na hora de desenvolver uma fragrância autoral ou comercial?

Na Oak Fragrances, entendemos que desenvolver uma fragrância vai muito além de acompanhar tendências ou criar algo tecnicamente perfeito. Existe um trabalho profundo de conexão humana, sensorial e estratégica.

Douglas Carvalho, Everton Rodrigues e eu estruturamos experiências como o “Jardim Sensorial”, onde abordo o despertar dos sentidos através do tato, palato, olfato e visão, e também o “Guardião de Memórias”, focado em memória olfativa e no estudo de aromacologia e aromaterapia. Esses encontros criam uma troca extremamente rica com os clientes e permitem compreender não apenas o produto que desejam desenvolver, mas também a verdade emocional e mercadológica por trás daquela marca.

Não enxergamos a perfumaria como uma divisão entre fragrâncias autorais ou comerciais. Enxergamos como o resultado de um trabalho coletivo, construído através de vivência, escuta, repertório técnico, sensibilidade criativa e entendimento real de consumo.

O Brasil, por si só, já é um universo de múltiplas culturas, comportamentos e identidades olfativas. Compreender essas diferenças é essencial para criar fragrâncias verdadeiramente relevantes.

De que forma arte, cultura, memórias e experiências pessoais influenciam as suas composições olfativas?

Arte, cultura, memória e experiências pessoais influenciam completamente minha forma de criar. Grande parte desse repertório vem da minha infância e das histórias da minha avó Cila. Ela tinha um universo muito rico de narrativas, contos e referências brasileiras, e isso despertou em mim uma imaginação extremamente sensorial.

Minha mãe também teve um papel essencial através da música. Cresci ouvindo óperas, musicais e grandes interpretações clássicas. Poucas pessoas sabem, mas estudei música e cantei em coral por quase uma década. E isso conversa diretamente com as fragrâncias.

O próprio universo das fragrâncias é descrito através de acordes, notas, evolução e harmonia. Quando estou criando, muitas vezes sinto como se estivesse compondo uma trilha sensorial. É quase uma experiência sinestésica, que me conecta ao passado, às memórias e às emoções.

Na sua visão, o que diferencia uma fragrância bem construída de uma fragrância verdadeiramente inesquecível?

Na minha visão, existe uma diferença muito grande entre técnica, criação e alma dentro da perfumaria. A técnica é algo que estudamos, aperfeiçoamos e adquirimos ao longo da trajetória profissional. Ela é fundamental, porque garante equilíbrio, performance, estrutura e qualidade.

A criação pode surgir simplesmente da combinação entre ingredientes. Mas uma fragrância verdadeiramente inesquecível vai além disso. Ela precisa ter alma.

Existe uma frase que marcou profundamente minha trajetória. Em 2015, José Luiz de Paula me disse: “Pataquinha, você não cria apenas fragrâncias, pois seus desenvolvimentos tem alma, e exalam o verdadeiro perfume além da técnica.” Guardei isso comigo, porque traduz exatamente aquilo em que acredito como perfumista.

E é justamente essa conexão invisível, emocional e humana que torna uma fragrância verdadeiramente inesquecível.

Ao longo da sua carreira, qual criação mais desafiou você como perfumista e por quê?

Essa é uma pergunta complexa para qualquer perfumista, porque não acredito que exista uma criação que tenha me desafiado mais ou menos do que outra. Cada projeto possui seu próprio universo, suas dificuldades e seu tempo de conexão.

Claro que existem desafios técnicos constantes: restrições regulatórias, diretrizes da IFRA, estabilidade, performance e limitações de matérias-primas. Mas, para mim, o maior desafio sempre foi outro: conseguir tocar emocionalmente o cliente e traduzir aquilo que ele ainda não conseguiu expressar em palavras.

Aprendi que a perfumaria exige equilíbrio entre técnica, sensibilidade e interpretação de mercado. O mercado brasileiro é muito influenciado por movimentos globais, mas também existe uma busca crescente por identidade. E talvez esse seja um dos maiores desafios atuais: criar algo que converse com tendências internacionais sem perder autenticidade.

Dentro da Oak Fragrances, conseguimos ampliar muito essa visão através de uma construção coletiva extremamente estratégica, envolvendo criação, marketing, gestão comercial e relacionamento próximo com os clientes.

Rafael Pataca e os perfumistas Alfredo Monteiro e Henrique Pereira

Olhando para o futuro, quais caminhos, conceitos ou territórios olfativos você ainda deseja explorar?

Quando penso no futuro da perfumaria, penso muito mais em legado do que apenas em tendência. Hoje, na Oak Fragrances, temos uma construção muito especial dentro da perfumaria. Somos três perfumistas vivendo momentos diferentes dessa jornada: eu, Rafael Pataca, como perfumista técnico criativo; Alfredo Monteiro, nosso perfumista sênior; e Henrique Pereira, perfumista júnior – um talento desenvolvido dentro da própria casa.

Grande parte do que desejo explorar no futuro está justamente nessa troca entre gerações. Hoje fala-se muito sobre inteligência artificial na perfumaria, algoritmos que geram fórmulas e sistemas capazes de cruzar dados olfativos. Mas acredito profundamente que perfumaria não é apenas combinação matemática de ingredientes.

Existe ancestralidade, repertório emocional, memória, sensibilidade e vivência humana dentro de uma criação. A verdadeira riqueza da perfumaria não está apenas nos detalhes técnicos da fórmula, mas naquilo que conseguimos ensinar, transmitir e transformar através dela.

Mais do que pensar apenas em quais acordes ou tendências ainda desejo explorar, acredito que meu maior desejo seja continuar criando conexões, despertando memórias e formando pessoas que mantenham viva essa paixão pela perfumaria. Porque, no final, ser eterno não é sobre o tempo. É sobre memória.

É quando alguém pronuncia seu nome anos depois e ainda consegue sentir aquilo que você deixou no mundo. É fazer história com um time que anseia por conhecimento e compartilha conquistas.

Time de Avaliação e Projetos

Fotos: Renan Ramos e Tamiris Durães
Publisher e Diretor Criativo: Sérgio Oliver
Supervisão de texto: André Terto
Arte gráfica e diagramação: Danni Chris