NOVA EDIÇÃO:
PEDRO KIMO
A NOVA GERAÇÃO DA PERFUMARIA DE NICHO NACIONAL
por: SÉRGIO OLIVER
Entre memória, emoção e identidade, Pedro Kimo constrói uma perfumaria que vai além das fragrâncias e se transforma em linguagem. Perfumista e fundador da marca autoral Sorry Not Sorry, ele enxerga o perfume como arte viva, uma forma íntima de contar histórias, provocar sensações e afirmar quem somos sem concessões.
Com uma abordagem ousada e independente, Pedro desafia padrões do mercado e propõe fragrâncias que não pedem aprovação, mas despertam verdade.
Nesta entrevista, ele compartilha o início da sua relação afetiva com o olfato, o nascimento de uma marca de nicho com personalidade marcante e os bastidores do processo criativo que equilibra técnica, emoção e liberdade. Entre referências da arte contemporânea, cultura urbana e experiências cotidianas, surge uma perfumaria que valoriza presença, textura e surpresa.
Mais do que falar sobre fragrâncias, Pedro fala sobre atitude: usar perfume como expressão pessoal, porque, no universo da Sorry Not Sorry, agradar é opcional e ser autêntico é essencial.
Como surgiu o seu interesse pela perfumaria e quando decidiu seguir a criação autoral?
Sempre fui muito ligado à memória e às emoções que um cheiro é capaz de despertar. Um perfume nunca foi apenas perfume para mim: ele sempre trouxe uma lembrança, um lugar, um estado de espírito. Com o tempo, percebi que o olfato é uma forma de comunicação muito direta. Ele não passa pela razão, vai direto para a sensação. Quando compreendi isso, ficou claro que esse seria o meio pelo qual eu poderia me expressar: minha tela em branco. Criar perfumes hoje é uma forma de contar histórias, provocar sentimentos e compartilhar minha visão de mundo. Perfume é arte: com liberdade, identidade e verdade.
A Sorry Not Sorry nasce como uma marca de nicho com personalidade marcante. Qual foi o ponto de partida?
A vontade de não pedir desculpas por existir. De não suavizar quem somos para agradar a todos. Por muito tempo, a perfumaria foi construída em torno do elogio e da validação externa. A Sorry nasce do movimento contrário: o perfume como algo íntimo, que você usa para si, sem precisar explicar, justificar ou se encaixar. Cada fragrância é um espaço de expressão pessoal: livre, aberta e sem regras rígidas.
O nome Sorry Not Sorry chama atenção. O que ele representa dentro da identidade da marca?
O nome Sorry Not Sorry traduz exatamente o equilíbrio que buscamos: leveza com convicção. É quase um comentário dito com um sorriso no rosto. A marca não se leva excessivamente a sério, mas trata a arte da perfumaria com extrema seriedade e dedicação. O nome reforça isso o tempo todo: é possível ter humor, atitude e, ao mesmo tempo, um cuidado incansável com qualidade, técnica e criação.
Quais referências influenciam o seu processo criativo?
Inspiro-me muito em comportamento, arte contemporânea, cultura urbana e situações comuns do dia a dia, especialmente aquelas que criam contraste — o esperado versus o inesperado. Existe uma grande diferença entre o que as marcas acreditam que as pessoas gostam e o que realmente agrada. A Sorry não busca parecer perfeita ou neutra, mas ser um espaço onde as pessoas se reconheçam e se sintam à vontade para serem quem são. A marca existe para encorajar essa liberdade, e não para padronizar ninguém. E, o mais importante: dizer que já temos tudo descoberto ou pré-definido seria uma grande mentira. O mais interessante tem sido descobrir, dia após dia, quem a Sorry está se tornando à medida que vem ao mundo, junto com vocês.
Como você define o estilo olfativo da Sorry Not Sorry?
Independente, ousado, criativo e com personalidade própria. Talvez fique mais claro pelo que evitamos: tendências repetitivas e perfumes previsíveis. A dualidade de ser perfumista e sócio da marca me permite criar com verdadeira liberdade. Escolho presença, textura e surpresa. Alguns perfumes são mais intensos, outros mais confortáveis, mas todos despertam curiosidade. O nicho não é um fim em si, mas um ponto de partida. O que importa é a sensação que o perfume provoca em quem o usa. Fazemos isso com intenção.
Você é criador e fundador. Quais foram os maiores desafios dessa trajetória?
Equilibrar criação com realidade. Criar sempre foi a parte mais natural para mim. Transformar isso em um projeto independente exige escolhas, ajustes e muita clareza de futuro. O maior desafio foi entender exatamente onde era possível flexibilizar e onde não havia espaço para abrir mão. A identidade da marca se constrói justamente nessas decisões.
Como você busca equilíbrio entre técnica, emoção e ousadia?
A técnica garante que o perfume funcione bem. A emoção define o que ele faz você sentir. A ousadia determina o quanto ele se destaca. Se tudo é correto demais, perde graça. Se há exagero sem critério, perde sentido. O equilíbrio acontece nos detalhes, nos testes, no tempo de ajuste: no imprevisível. É ali que o perfume ganha personalidade e verdade.
Como é o processo de escolha das matérias-primas e a conexão com o público?
O ponto de partida nunca é a matéria-prima isolada, mas o efeito na pele: o que essa obra quer transmitir? Primeiro penso no que quero provocar, depois escolho os componentes que vão sustentar essa sensação ao longo do dia. A conexão acontece porque nossos perfumes não são óbvios. As pessoas têm vários humores, fases e facetas, e nossas fragrâncias acolhem essas variações. Muitos se sentem representados por algo que nunca haviam encontrado antes, e isso cria uma relação muito forte com a marca.
Que mensagem você deseja transmitir para quem usa Sorry Not Sorry pela primeira vez?
Que está tudo bem ser você. Que você não será sempre o mesmo todos os dias. Você pode querer chamar atenção ou ser discreto. Pode usar algo mais fresco durante o dia, mais intenso à noite ou algo confortável depois do banho. Se alguém gostar, ótimo. Se alguém estranhar, faz parte. No fim, é simples: a vida é curta demais para deixar de usar algo que você gosta por medo de desagradar. Acreditamos que é melhor incomodar do que passar despercebido.
Quais são os próximos passos da marca?
Aprofundar o universo da Sorry, sem pressa. Novas fragrâncias, edições limitadas e experiências pensadas para quem já se conecta com a marca. Vejo a Sorry como uma marca brasileira com identidade própria, capaz de circular fora do país sem perder sua essência. Crescer, sim, mas sempre com verdade e intenção.
Fotos: Daniel Monteiro e Matheus Magalhães
Publisher e Diretor Criativo: Sérgio Oliver
Supervisão de texto: André Terto
Arte gráfica e diagramação: Danni Chris
