NOVA EDIÇÃO:

MATHEUS UETA
um grande talento na tv e na perfumaria

por: SÉRGIO OLIVER

Ele conquistou o público ainda criança com seu carisma na televisão, interpretando personagens marcantes e apresentando programas que ficaram na memória de toda uma geração.

Hoje, mais maduro e com um novo propósito, Matheus Ueta vem se destacando em um universo que talvez poucos esperassem: o da perfumaria.

Com um olhar apurado, uma linguagem acessível e muito conhecimento sobre fragrâncias, Matheus se consolidou como influenciador de perfumes nas redes sociais, cativando um público fiel que compartilha da mesma paixão por aromas, memórias e identidade.

Nesta entrevista exclusiva, Matheus revisita sua trajetória na televisão, fala sobre a transição para o mundo digital e revela como constrói seu conteúdo voltado à perfumaria. Um bate-papo autêntico, inspirador e cheio de boas dicas para quem deseja mergulhar nesse universo olfativo com personalidade e sensibilidade.

Prepare-se para conhecer um novo lado desse artista tão versátil e, quem sabe, descobrir o perfume que vai marcar sua própria história.

Você começou sua carreira muito jovem. Conta para os nossos leitores um pouco sobre sua trajetória na TV como ator e apresentador. Quais os momentos que mais marcaram você?

Comecei minha trajetória artística muito cedo. Aos 3 anos, já fazia publicidade. Aos 7, entrei para a televisão com o elenco de Carrossel, um verdadeiro divisor de águas na minha vida. Antes mesmo de as gravações terminarem, vivi um dos momentos mais emocionantes da minha carreira: o convite para apresentar o Bom Dia & Cia, feito pessoalmente pelo Silvio Santos.

Foi durante uma das minhas participações no Programa Silvio Santos, no quadro “3 Pistas”. Ana Vitória e eu estávamos no camarim, aguardando nossa vez, quando Silvio entrou, nos cumprimentou e disse com aquele jeito único: “Vocês sabem que serão os próximos apresentadores do Bom Dia & Cia?” Ficamos estáticos, surpresos, em silêncio. Ele então completou: “Claro, se vocês quiserem.” Olhamos um para o outro e, sem pensar duas vezes, gritamos: “Simmmm, Silvio!” Que alegria! Sem dúvida, um momento marcante e inesquecível.

Mas antes disso, houve outro dia igualmente especial: o Dia do Sim. Depois de seis ou sete testes, recebi a confirmação de que faria parte do elenco de Carrossel. Foi mágico. A estreia, a turnê de shows, os bastidores… foram muitos momentos intensos e memoráveis que marcaram minha infância e moldaram quem sou hoje.

O personagem Kokimoto, da novela Carrossel, é lembrado com muito carinho até hoje. Como foi viver esse papel e o que ele representou (ou ainda representa) na sua vida pessoal e profissional?

Kokimoto foi um verdadeiro divisor de águas na minha vida. Sou imensamente grato por essa oportunidade. Foi ele quem me apresentou ao Brasil, e até ao mundo. A novela Carrossel foi exibida em diversos países, e até hoje acontece de me chamarem de Kokimoto por aí. Esse personagem arteiro conquistou muita gente, e isso foi uma surpresa muito especial para nós, já que ele não tinha uma história própria ou um núcleo exclusivo dentro da trama.

Quando me perguntam se fico bravo por ainda me chamarem de Kokimoto, minha resposta é sempre a mesma: “Seria muita ingratidão da minha parte ficar bravo. O Kokimoto mudou a minha vida, e a vida da minha família.” Ele é parte da minha história, e carrego esse carinho com muito orgulho.

Em que momento os perfumes passaram de interesse pessoal para uma verdadeira paixão? Sempre teve essa conexão com fragrâncias ou foi algo que surgiu com o tempo?

Eu sempre curti perfumes, mas era algo mais superficial. Eu apenas gostava, usava, e pronto. Meu foco estava nos perfumes designers, e nem sabia que existia um universo chamado perfumaria de nicho. Tudo começou a mudar durante um hiato nos trabalhos, quando comecei a pensar em como poderia usar minhas redes sociais de forma mais autêntica.

Em uma conversa com minha mãe, ela me deu um conselho simples, mas poderoso: “Fala sobre a sua verdade. Sobre o que você gosta, o que você conhece.” E foi assim, de forma totalmente despretensiosa, que postei meu primeiro vídeo sobre perfumes… e explodiu!

Naquele momento, entendi: é isso. Decidi mergulhar de cabeça. Comecei a pesquisar, estudar, buscar conhecimento, gravar — e não parei mais. Falar sobre perfumes é apaixonante. Aprender todos os dias sobre esse universo é apaixonante. E quando você compartilha algo com paixão, as pessoas se conectam com você. E, naturalmente, as coisas começam a dar certo.

Você se lembra do primeiro perfume que o marcou? Qual era e por que ficou na memória?

Sim, o primeiro perfume a gente nunca esquece, né? O primeiro que me lembro de ter ganhado foi um presente do meu tio: um Kaiak tradicional. Era o perfume que ele usava, e me deu um igual. Um gesto simples, mas que marcou.

Mas o perfume que realmente mudou tudo, que acendeu minha paixão pela perfumaria, foi o Tobacco Vanille de Tom Ford. Ele foi o estopim. Com esse perfume, entendi o que era a perfumaria de verdade. Percebi que não existiam limites,  que o universo olfativo ia muito além dos cheiros comerciais com 100% de aceitação.

Tobacco Vanille me mostrou que perfume pode ser arte, pode ser expressão, pode ser identidade. Foi ali que tudo começou de verdade.

O que o motivou a transformar essa paixão pela perfumaria em conteúdo para as redes sociais?

Como eu disse, tudo começou meio por acaso, e pelo sucesso inesperado dos primeiros vídeos. Mas hoje posso afirmar com convicção: virou uma paixão. Conforme fui me aprofundando, descobri os bastidores da perfumaria, os processos de criação, as histórias por trás de cada fragrância, os perfumistas, suas inspirações, os caminhos criativos… e tudo isso é absolutamente fascinante.

A perfumaria vai muito além de um cheiro agradável. Não é apenas sobre o perfume em si, é sobre a indústria, os processos, o ecossistema inteiro que faz esse universo acontecer. E criar conteúdo, gerar entretenimento, traduzir esse mundo para o consumidor também faz parte desse ecossistema. É por isso que sou tão apaixonado por tudo isso.

Cada vídeo, cada descoberta, cada conversa sobre fragrâncias é uma forma de viver e compartilhar essa paixão.

Quais critérios você leva em conta na hora de escolher um perfume para resenhar nas suas redes? Existe uma curadoria ou você prefere testar de forma mais espontânea?

Eu escolhi falar sobre os perfumes que testei e gostei. Prefiro focar no que me encanta, no que funciona para mim. Não que eu evite comentar sobre fragrâncias que não me agradam. Isso não é um problema, afinal, cheiro é algo extremamente pessoal. Inclusive, tenho um bordão que resume bem essa ideia: “Seu perfume, suas regras.”

O que eu evito mesmo é falar sobre produtos cuja qualidade construtiva ou dos ingredientes não me convence. Acredito que criticar sem propósito pode afastar mais do que ajudar. Por outro lado, falo com entusiasmo sobre muitos perfumes, porque aprendi a apreciar e entender que cada fragrância tem seu momento, seu propósito. Um perfume pode despertar uma memória, uma sensação, marcar um instante ou até mudar nosso estado de espírito.

Vejo que muita gente transforma certos perfumes em “monstros”, como se fossem unanimidades absolutas. Mas eu penso diferente: perfume é como time de futebo: cada um tem seu gosto, sua preferência, e “tá tudo bem”.

Existe alguma conexão entre interpretar personagens e escolher fragrâncias, como perfumes que “vestem” certos papéis ou estados de espírito?

Sim, completamente! Sou um grande defensor dessa ideia e produzo muitos conteúdos nesse sentido. Além de indicar perfumes para cada ocasião e clima, gosto de relacionar fragrâncias com música, cor, personagens… porque perfume é muito mais do que aroma, é linguagem, é expressão.

E isso é biológico. A neurociência mostra que os odores não apenas despertam memórias e emoções, como também influenciam processos cognitivos. Por isso, o perfume se torna uma ferramenta poderosa e eficiente para o “papel” que você quer interpretar naquele momento.

Sempre que eu ia construir um personagem para as telas, fazia um mood board mental, um exercício muito comum na criação de personagens. Nele, reunia elementos que, na minha visão, compunham o universo daquele personagem: tipo de roupa, drink favorito, carro, acessórios… e, claro, o perfume. Porque fragrâncias são extensões da personalidade e elas falam por você, mesmo em silêncio.

Então sim, vejo uma conexão profunda entre interpretar um personagem e escolher uma fragrância. Cada perfume é uma narrativa, uma atmosfera, uma emoção. E quando bem escolhido, ele ajuda a contar a história com ainda mais verdade.

Como o público que o conheceu na TV reagiu a essa nova fase como influenciador de perfumes?

Acredito que quem já acompanhava meu trabalho recebeu bem essa nova fase, associando-a ao meu amadurecimento. Por outro lado, muitos dos novos seguidores, especialmente os que chegaram por conta dos conteúdos de perfumaria, ainda não me conectam diretamente à TV e ao cinema. Há um tempo, publiquei um vídeo que fazia essa ponte entre o Matheus e o Koki, e foi uma surpresa para muita gente!

O que percebo é que apresentei esse hobby da perfumaria para uma parte significativa do meu público. No entanto, para minha surpresa, mais de 90% das pessoas que acompanham meus conteúdos sobre perfumes não eram seguidores anteriores: são pessoas que se interessaram pelo tema em si, e não necessariamente por mim.

Já aqueles que conheciam o Matheus da televisão entendem que sou um entusiasta de muitas coisas. E é justamente isso que me move: compartilhar tudo aquilo que amo. Esses seguidores acabam embarcando comigo em jornadas de descoberta, explorando novos hobbies e vivendo experiências diversas ao meu lado.

Você segue alguma rotina ou ritual especial na hora de testar ou resenhar um perfume novo?

Não sigo exatamente uma rotina rígida na hora de testar ou resenhar um perfume novo. Eu simplesmente uso. Acima de tudo, sou um consumidor apaixonado, e gosto de experimentar minhas fragrâncias como qualquer pessoa comum faria: escolho o perfume de acordo com os compromissos do dia. Isso me ajuda a entender, na prática, o que o público que acompanha meus conteúdos está buscando ao escolher uma fragrância.

Com o tempo, esse hábito de testar um perfume por dia acabou virando um ritual (risos), assim como sempre que posso, entro em lojas de perfumes ao redor do mundo para testar novidades e conversar com os vendedores. Adoro descobrir marcas novas, trocar experiências e explorar os portfólios de cada casa perfumista.

Afinal, meu trabalho gira em torno de portfólio: preciso estar constantemente atualizado, conhecendo algo novo todos os dias. Só assim consigo indicar com segurança e paixão o melhor para quem me acompanha nessa jornada olfativa.

10.Na sua opinião, qual o maior erro que as pessoas cometem ao escolher um perfume?

Um dos erros mais comuns ao escolher um perfume é focar apenas em projeção e fixação, sem considerar a ocasião de uso. Na maioria dos casos, vale a máxima: “menos é mais”. Nem sempre é necessário que o perfume tenha alta projeção ou dure o dia inteiro. O mais importante é que ele se encaixe bem no contexto em que será usado.

Outro equívoco frequente é basear a escolha apenas na marca ou no preço. Perfume é algo extremamente pessoal. Não é porque todo mundo ao seu redor está usando o Dior Sauvage que você precisa usar também. E não é porque a internet inteira está comentando sobre o perfume X que ele vai funcionar para você só porque está na moda. Às vezes, o cheiro que vai te conquistar de verdade é de um perfume nacional de duzentos reais, e está ótimo!

Ao escolher uma fragrância, é essencial levar em conta diversos fatores: sua rotina, o clima dos lugares que você frequenta, a estação do ano, sua cidade, sua personalidade, seu momento de vida. São tantas variáveis que, no mundo ideal, cada pessoa poderia criar sua própria fragrância sob medida para tudo isso (risos). Será que no futuro isso vai ser mais fácil?

Perfume também é memória. Existe alguma fragrância que o transporta direto para os bastidores da TV ou para sua infância?

Nos bastidores da TV, curiosamente, não tenho um perfume que me marcou de forma especial. Mas quando o assunto é viagem, aí sim, minhas memórias olfativas são intensas e muito bem definidas.

Vou dar alguns exemplos recentes. Em Buenos Aires, no final de 2024, ganhei de presente de Natal da minha mãe o Loewe Solo Cedro. Desde então, toda vez que sinto esse perfume sou imediatamente transportado para aquela noite de Natal, no Airbnb na Recoleta, ao lado do meu avô e da minha tia-avó. É como se o cheiro trouxesse de volta o calor daquela noite, mesmo em meio ao frio argentino.

Já em fevereiro, viajei para Columbus, Ohio, onde a temperatura girava em torno dos -10 graus todos os dias. Durante toda a viagem, usei o Xerjoff Naxos. Hoje, sempre que sinto essa fragrância, me lembro das caminhadas noturnas pelas ruas geladas da cidade, ao lado da minha mãe, enquanto conversávamos sobre a vida, os sonhos e as expectativas para o futuro.

Esses perfumes se tornaram cápsulas de memória em que cada borrifada é uma viagem no tempo.

Como você enxerga o mercado de perfumaria no Brasil hoje? Acha que o público está mais aberto a conhecer fragrâncias novas, nichadas ou de fora do mainstream?

A perfumaria está vivendo um momento de grande valorização! Cada vez mais pessoas estão deixando de lado a ideia de ter um único perfume assinatura e aprendendo a escolher fragrâncias de acordo com a ocasião. Estão entendendo que existem perfumes mais adequados para diferentes climas, momentos e ambientes, o que tem aberto espaço para descobertas incríveis.

Um dos grandes desafios do mercado brasileiro, no entanto, é o preço elevado dos perfumes. Os impostos sobre perfumaria são altíssimos, o que torna muitos produtos inacessíveis para grande parte da população. Isso limita o acesso a fragrâncias mais exclusivas e sofisticadas.

Por outro lado, a chegada da perfumaria árabe ao Brasil tem sido um divisor de águas. As opções nas prateleiras aumentaram exponencialmente, permitindo que o consumidor explore famílias olfativas que antes eram pouco representadas na perfumaria nacional. Isso tem despertado curiosidade e até mesmo uma vontade constante de conhecer novidades.

No fim das contas, quanto mais acessível for esse universo, melhor. Assim, mais pessoas terão a chance de se apaixonar por esse mundo encantador, como nós já somos apaixonados.

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Fotos: Fernando Satt
Publisher e Diretor Criativo: Sérgio Oliver
Supervisão de texto: André Terto
Arte gráfica e diagramação: Danni Chris