NOVA EDIÇÃO:

LUCIENE RICCIOTTI
onde a ciência encontra a alma do perfume

por: SÉRGIO OLIVER

Publicitária, escritora e especialista em perfumes, Luciene Ricciotti transformou sua paixão pelo universo olfativo em um propósito que conecta ciência, arte e comunicação. Autora do consagrado livro Estação Perfume, ela se tornou referência em branding olfativo e no estudo das emoções despertadas pelas fragrâncias. Agora, Luciene dá um novo passo ao unir neurociência e tecnologia na criação da Belsense, primeira empresa brasileira de neurotecnologia especializada em fragrâncias e aromas. Sua pesquisa promete revolucionar o mercado ao revelar, de forma científica, como as fragrâncias influenciam o cérebro, o comportamento e o bem-estar humano. Nesta entrevista inspiradora, Luciene compartilha sua trajetória, suas descobertas e sua visão sobre o poder transformador do olfato: uma linguagem silenciosa capaz de comunicar quem somos e como sentimos o mundo.

Luciene, você é formada em comunicação e construiu uma carreira sólida como especialista em perfumes. Quando e como essa paixão pelo universo olfativo começou a se transformar em um propósito profissional?

A perfumaria, antes uma paixão pessoal, veio revolucionar a minha carreira como publicitária ao unir essas duas áreas que tem algo muito relevante em comum: ambas exigem que conheçamos, profundamente, as pessoas e como elas se comunicam, interpretam e interagem com o mundo ao seu redor.

Sempre acreditei no que as pesquisas mais recentemente, hoje, comprovam: a comunicação, verdadeiramente, eficaz é aquela capaz de transmitir, através da linguagem, uma mensagem em completa sintonia com as percepções inconscientes despertadas no cérebro, através de nossos sentidos.

Por essa razão, a especialização em perfumaria foi uma consequência inevitável para construir estratégias de comunicação, utilizando a força do olfato, o mais emocional dos sentidos, para atingir objetivos tanto empresariais quanto pessoais.

Seu livro Estação Perfume se tornou uma referência no mercado. O que mais a inspirou durante o processo de escrita e por que acredita que essa obra se conecta tanto com o público até hoje?

Minha grande fonte de inspiração foi a paixão do consumidor brasileiro pelos perfumes e o desejo de escrever algo que possibilitasse a ele mergulhar no universo da perfumaria, despertando em cada leitor a vontade de usar os perfumes como uma ferramenta estratégica em suas vidas e, ainda, como uma fonte de bem-estar. Eu acredito que foi essa inspiração que auxiliou a formar essa conexão deliciosa com o leitor, que ocorre até hoje.

Livro caixinha Aromaterapia escrito por Luciene Ricciotti (Foto: Divulgação)

Além de escritora, você é uma palestrante requisitada e ministra cursos sobre perfumaria e brand olfativo. O que mais a motiva quando está ensinando e trocando experiências com seus alunos?

Minha maior fonte de motivação é a certeza de que o conhecimento é, sempre, transformador, promove crescimento e rende frutos para o dia a dia profissional e pessoal dos meus alunos e dos funcionários de empresas onde realizo treinamentos.

Não há motivação maior do que buscar esse retorno na vida das pessoas. Eu, simplesmente, amo compartilhar minha experiência, conhecimento e, ainda, acompanhar a aplicação desse aprendizado nos projetos que cada aluno desenvolve, seja em sua vida profissional ou pessoal.

Em suas aulas, você fala sobre o perfume como um código de linguagem e expressão pessoal. De que maneira o olfato comunica quem somos, mesmo sem palavras?

Desde os tempos primórdios, os seres humanos usam as fragrâncias para usufruir de seus benefícios fisiológicos e emocionais. Com o passar do tempo, em meio à própria evolução da perfumaria, aspectos culturais foram sendo agregados às emoções despertadas pelas fragrâncias, associando suas notas a símbolos de status, romantismo, energia, sensualidade etc. Por essa razão, os perfumes, além das suas características fragrantes, que influenciam nossas emoções agindo, diretamente, no sistema límbico do cérebro, são capazes, ainda, de promover associações inconscientes aos mais variados atributos, imagens etc.

Um exemplo simples, é a associação, que ocorre entre a lavanda e o universo dos bebês. Essa nota que é, comprovadamente, capaz de promover calma e serenidade é, historicamente, utilizada em produtos de higiene e perfumaria para crianças (justamente por sua característica relaxante). Dessa forma, ao inspirar fragrâncias com notas de lavanda, é natural que nosso cérebro, não apenas, sinta seus benefícios emocionais, mas também, faça associações, imediatas, ao seu ambiente de uso e aplicações.

Assim, utilizando as características fragrantes e as associações de suas notas a atributos específicos, o perfume torna-se uma ferramenta poderosa de engajamento e construção de imagem, comunicando uma mensagem específica de forma silenciosa e envolvente.

Agora você mergulha em um novo projeto de grande relevância: a relação entre neurociência e perfumaria com uso de Tecnologia aplicada. Como surgiu essa ideia e qual é o foco principal dessa pesquisa?

A ideia surgiu em uma conversa informal com meu atual sócio, Eldes Mattiuzzo Junior, empreendedor na área de tecnologia. Conversávamos sobre nossos trabalhos e, rapidamente, percebemos que a tecnologia aplicada era a chave para a superação dos desafios que vinham sendo impostos à Neurociência nesse setor: conhecer, profundamente, os efeitos da perfumaria na mente das pessoas, estabelecer relações entre o perfil de cada consumidor e seu gosto por perfumes e, por fim, reduzir riscos de fracassos em vendas nos lançamentos de novos perfumes alinhados com as necessidades e gostos dos consumidores, possibilitando, ainda, orientar, com precisão científica, os processos de formulação.

Para cumprir esse desafio gigante, criamos a Belsense, a primeira empresa de Neurotecnologia e tecnologia aplicada, especializada no mercado de fragrâncias e aromas. O foco principal de nosso primeiro estudo é a criação do NEUROSCORE, uma ferramenta inédita de avaliação e comparação que está sendo desenvolvida através de Pesquisa Neurossensorial, perfil dos consumidores e uso de Machine Learning (aprendizado de máquina) que vai registrar e analisar os dados da experimentação dos 10 perfumes masculinos e 10 perfumes femininos mais vendidos do país.

Esse novo estudo vai promover a elevação da qualidade de criação e da competitividade da Indústria de perfumaria e reduzir riscos no lançamento de novos produtos possibilitando, ainda, compreendermos, cientificamente, os fatores de maior influência desses perfumes nas emoções humanas.

Como a interseção da Neurociência e das ferramentas de tecnologia aplicada no mercado de fragrâncias pode mudar o mercado de perfumaria?

O uso das ferramentas de Machine Learning (aprendizado de máquina) na pesquisa neurossensorial nesse estudo possibilitará a validação e o entendimento sobre os indicadores que levam um perfume a se tornar um blockbuster no mercado, estabelecendo correlações entre esses indicadores, perfil dos consumidores e os sinais neurossensoriais que captamos em nossas pesquisas, o que ajudará na construção de modelos mais assertivos e, no futuro, preditivos.

Essa possibilidade irá reduzir os riscos, não apenas no lançamento de novos perfumes, dentro dos padrões existentes, mas permitirá antever o sucesso de opções olfativas inovadoras, apontando um caminho seguro financeiramente para promover a diversidade de perfis olfativos, oferecendo à indústria, mais segurança e aos consumidores, perfumes melhores, mais criativos e, ao mesmo tempo, apaixonantes.

Outra mudança importante é que o uso da tecnologia aplicada à pesquisa neurossensorial tornará a aplicação da Neurociência mais acessível, possibilitando às pequenas e médias empresas usufruírem dos seus benefícios, elevando a qualidade e a competitividade do mercado como um todo.

Como especialista, você acredita que compreender o cérebro e suas respostas às fragrâncias pode mudar a forma como as marcas e pessoas utilizam os perfumes no dia a dia?

De uma forma geral, a grande mudança no uso de informações neurossensoriais e suas reações às fragrâncias, além da redução de riscos, é a possibilidade de criação de perfumes capazes de atingir, com precisão, as emoções humanas e estados cognitivos, através de fragrâncias projetadas, cientificamente, para encantar e, ainda, oferecer benefícios emocionais aos consumidores.

Assim, a compreensão das reações ocorridas no cérebro, em resposta às fragrâncias, tornou-se fundamental para elevar, ainda mais, o potencial do mercado de perfumaria, possibilitando não apenas mudar a forma como as marcas e as pessoas utilizam os perfumes, mas também, promover a ampliação do número de pessoas que se perfumam diariamente (hoje, segundo pesquisas: 6 em cada 10 brasileiros), porque com a divulgação de uma perfumaria, comprovadamente, capaz de alterar estados emocionais e transmitir, de forma silenciosa, mensagens poderosas às pessoas ao redor, os perfumes deixarão de ser apenas um produto de “perfumaria” e poderão se tornar, sem dúvida, um produto para conquista de objetivos pessoais, profissionais e, ainda, uma ferramenta simples e acessível para busca e manutenção de estados emocionais positivos.

Nos seus cursos e palestras, o que mais costuma surpreender o público quando você explica a conexão entre o perfume e o comportamento humano?

O que mais costuma surpreender o público é a comprovação da capacidade dos perfumes de promoverem alterações instantâneas e imediatas em nossas emoções.

Esse impacto é ainda maior quando utilizamos nas palestras, um aparelho de Eletroencefalograma (EEG) Emotiv Epoc, que mostra em um telão, as alterações ocorridas no cérebro, enquanto um participante inspira uma fragrância usando o equipamento.

Mais do que surpreender o público, essa demonstração conscientiza as pessoas sobre a importância dos estudos com Neurotecnologia para o mercado de perfumes.

Você acredita que o estudo do olfato pode se tornar uma ferramenta terapêutica ou educacional mais reconhecida no futuro?

Tenho absoluta certeza disso. Existem diversos estudos que comprovam os benefícios do uso do olfato para promover bem-estar emocional. Mas além do seu uso, como ferramenta terapêutica, acredito que haverá a conscientização sobre como somos influenciados de forma silenciosa por tudo o que inspiramos, enquanto respiramos para sobreviver. E essa conscientização possibilitará o reconhecimento da importância de se utilizar a perfumaria como um hábito diário tanto para combater estados emocionais negativos, como de ansiedade ou tristeza, quanto para promover e manter estados mentais positivos, tais como foco e calma.

Muitos profissionais do setor a consideram uma ponte entre ciência, arte e comunicação. Como você traduz temas tão técnicos em algo acessível, poético e inspirador?

Em primeiro lugar, eu me sinto lisonjeada e agradecida com essa percepção sobre o meu trabalho.

Acredito que minha capacidade de escrever e falar de forma simples sobre temas complexos, teve início como redatora publicitária, quando descobri o prazer de usar a comunicação de forma clara e em uma linguagem simples e persuasiva. Assim, durante muitos anos, trabalhei e estudei, profundamente, técnicas de escrita e de comunicação. Um conhecimento que foi ainda mais desenvolvido com a prática do professorado.

Mas acredito que procurar conhecer o universo das pessoas e me colocar no lugar do outro é a forma mais clara e envolvente para estabelecer pontes entre universos distintos e complexos, como o da ciência, da arte e da comunicação. Toda área tem sua linguagem própria, qualidades e desafios, por essa razão, é preciso respeitar diferenças e encontrar pontos de colaboração e interesses comuns entre setores tão diversas, mas igualmente fascinantes.

Depois de tantos anos dedicados ao estudo e à difusão do universo olfativo, quais foram os momentos mais marcantes da sua trajetória até aqui?

Um momento muito marcante foi o lançamento do livro Estação Perfume, meu quarto livro, primeiro na área de Perfumaria, publicado pela Editora Matrix e lançado na icônica Livraria Cultura do Conjunto Nacional, com apoio de grandes nomes do mercado como Natura, TFS, Excellence, Puig, RR, Viscaya e, ainda, de fornecedores de matérias-primas para o setor, como Vollmens e Aptar.

Entre tantos eventos, publicações e projetos foram muitos os momentos marcantes. Entre eles estão, também, minha participação, há mais de 10 anos, como jurada do Prêmio Atualidade Cosmética, nessa grande festa que reúne profissionais e empresas do mercado de perfumaria do país.

Além dos momentos passados, o momento atual já está entre os mais marcantes com a expectativa de oferecer ao mercado uma ferramenta inédita para o desenvolvimento do setor e possibilitar, não apenas a criação de produtos apaixonantes, mas cheios de benefícios para os consumidores.

Fotos do lançamento do livro Estação Perfume, que se tornou um bestseller da autora (Fotos: Acervo Luciene Ricciotti)

Por fim, Luciene, o que você espera despertar nas pessoas com seu novo projeto em neurociência, e qual legado gostaria de deixar para o campo da perfumaria e da consciência sensorial?

Com esse novo projeto de Neuroperfumaria e Tecnologia Aplicada, eu espero despertar nas pessoas a consciência sobre a importância do sentido do olfato e, consequentemente, sobre a escolha de seus perfumes como um canal de comunicação estratégica com o mundo e, ainda, como um produto capaz de promover estados emocionais desejados em cada ocasião, como por exemplo: foco para trabalhar, força para desafiar e, é claro, alegria para celebrar.

E especialmente para o campo da perfumaria, meu desejo é promover o crescimento do mercado, tornando acessíveis as mais incríveis descobertas e análises neurossensoriais, como um caminho para a redução de riscos e para o uso criativo e disruptivo da criação de fragrâncias e, dessa forma, viabilizando a entrega aos consumidores, não apenas de produtos encantadores, com amplo potencial comercial para a indústria, mas de perfumes capazes de levar  prazer sensorial e bem-estar ao dia a dia das pessoas.

Fotos: Renan Ramos
Publisher e Diretor Criativo: Sérgio Oliver
Supervisão de texto: André Terto
Arte gráfica e diagramação: Danni Chris