NOVA EDIÇÃO:
LOUISE FARINA
A HERDEIRA DE UM LEGADO QUE É UM MARCO NA HISTÓRIA DA PERFUMARIA
por: SÉRGIO OLIVER
Louise Farina é uma perfumista recém-formada pela renomada escola ISIPCA, na França, uma das mais prestigiadas instituições de formação em perfumaria do mundo. Herdeira de um legado centenário, ela representa a nona geração da icônica família Farina — descendente direta de Johann Maria Farina, criador da primeira eau de cologne, na cidade de Colônia, na Alemanha, marco histórico da perfumaria mundial. Agora, Louise assume o desafio de dar continuidade a essa trajetória única, liderando a marca com um olhar contemporâneo e profundo respeito às suas origens.
Como é carregar o sobrenome Farina, que faz parte da história da perfumaria mundial?
Carregar o sobrenome Farina vem, naturalmente, com um senso de responsabilidade. É um nome que moldou a história da perfumaria e, claro, existe uma expectativa de manter certos padrões. Mas, para mim, essa tradição sempre foi algo muito orgânico e próximo ao coração. Vi isso nos meus avós, no meu pai, e agora vivencio isso por mim mesma – essa paixão pela Eau de Cologne faz parte de quem somos. Eu não poderia imaginar um caminho mais significativo ou uma profissão que me parecesse mais autêntica.
Você é a nona geração de uma linha de perfumistas. Em que momento da vida percebeu que queria seguir esse caminho?
Eu tinha seis anos quando ganhei minha própria mesinha no laboratório, no andar de baixo do museu, onde comecei meus primeiros experimentos. Nada muito impressionante saiu dessas tentativas iniciais, claro, mas crescendo nesse ambiente, honestamente não me lembro de um tempo em que eu não quisesse seguir esse caminho. Para mim, sempre foi algo que ia além da perfumaria em si – envolve também a empresa, as pessoas que trabalham aqui e tudo o que cerca esse legado. Tenho lembranças vívidas do meu pai chegando em casa depois do trabalho, colocando óleo de jasmim sob meu nariz e dizendo: “Não é maravilhoso esse cheiro?” Mesmo adolescente, eu o acompanhava em feiras e viagens para Grasse, para visitar plantações. Então sempre foi o meu sonho, e sempre tive clareza de que não havia outro caminho.
A ISIPCA é considerada uma das melhores escolas de perfumaria do mundo. Como foi essa experiência e você teve que morar em Paris?
Morei em Versailles, pois a escola fica lá. Meu tempo na França foi, sem dúvida, uma das experiências mais formadoras para mim. As conexões e amizades que construí nesse período continuam muito vivas até hoje, e tenho certeza de que durarão muitos anos. É maravilhoso ter amigos trabalhando na mesma indústria, que hoje reencontro também em contextos profissionais. Tive uma experiência fantástica e ainda mantenho contato com alguns dos meus professores.
Para matar a curiosidade de quem sonha em ser perfumista: como era sua rotina na faculdade e o que aprendeu nas aulas?
Antes de frequentar a ISIPCA, concluí o Bacharelado em Química, o que foi essencial para construir uma base científica sólida. A perfumaria é, claro, uma profissão incrivelmente criativa, mas muitas pessoas não percebem que a maioria dos perfumistas também são químicos ou farmacêuticos. Especialmente hoje, com tantas exigências e regulamentações, esse conhecimento é indispensável para entender verdadeiramente os materiais.
Na ISIPCA, tínhamos diferentes módulos, como aulas de olfato, onde você treina o nariz e constrói uma espécie de biblioteca pessoal de matérias-primas. Também estudamos os clássicos da perfumaria – sua história, como as fragrâncias evoluíram com o tempo e quais criações fizeram sucesso em diferentes regiões. E claro, aulas de criação, onde aprendemos a compor diferentes famílias olfativas como colônias, chypres ou fougères. É uma disciplina altamente complexa, mas também um ofício maravilhoso e uma verdadeira alegria de aprender.
Agora que você se formou, está tocando o negócio ao lado do seu pai. Como é trabalhar com ele? Você já tem alguma criação sua disponível na loja ou a caminho?
Tudo o que está disponível atualmente na loja está mais no campo das reformulações do que de criações totalmente novas. O que muitas pessoas não percebem é que, mesmo uma fragrância como a Eau de Cologne, que para o cliente sempre parece igual, precisa ser ajustada constantemente. Cada safra é diferente, e as matérias-primas podem variar em seu perfil olfativo, então participo de perto desses ajustes.
O mesmo acontece com a linha do zodíaco inspirada em Tina Farina, minha avó. Algumas dessas fórmulas datavam dos anos 1980 e, com o tempo, certos ingredientes deixaram de ser permitidos pelas normas, especialmente porque trabalhamos amplamente com matérias-primas naturais. Isso torna a reformulação bastante desafiadora, especialmente no que diz respeito a possíveis alérgenos. Então revisei e atualizei várias dessas composições.
No momento, também estou trabalhando em uma linha completamente nova que será lançada na próxima primavera. Esse projeto é como meu “bebê” e tem recebido a maior parte do meu foco criativo agora. Será um novo capítulo para a marca e uma de nossas prioridades principais para os próximos anos, ao lado da clássica Eau de Cologne.
Louise Farina e seu pai Johann Maria Farina
Quais valores da tradição Farina você pretende preservar e quais sente que é hora de transformar?
Na Farina, existem realmente dois valores centrais que definem tudo o que fazemos: clareza e alegria. Talvez venha do trabalho com tantos cítricos – há uma certa leveza e otimismo em nossas fragrâncias.
Quando pensamos no futuro, nossa abordagem é bem diferente da maioria das marcas. Não nos baseamos em pesquisas de mercado; em vez disso, olhamos para nossos próprios arquivos para ver o que já foi feito. Por exemplo, no ano passado reestilizamos o logotipo voltando ao design de 1925, e nosso próximo frasco é inspirado em um modelo de 1850. Essa ideia – de que a tradição é nossa força e que cada geração deve adaptá-la ao seu tempo – é central para nossa filosofia.
Ao mesmo tempo, sinto que é importante nos tornarmos mais visíveis, especialmente online e nas redes sociais, e desenvolver a distribuição para que mais pessoas descubram nossas fragrâncias. Mas o foco sempre será o produto em si – é aí que está o verdadeiro valor para nós.
Com tantas mudanças no mercado de fragrâncias, como sustentabilidade e inteligência artificial, como a marca Farina, tão tradicional, se vê nessa nova era da perfumaria?
Quando se trata de sustentabilidade, é importante entender que já estávamos comprometidos com esses princípios muito antes de virarem tendência ou senso comum na indústria. Temos mais de 300 anos, e nosso objetivo é continuar fazendo isso por mais 300. Desde o início, sempre evitamos o uso excessivo de plástico, desenvolvemos frascos recarregáveis e tomamos decisões com foco no longo prazo – seja para o meio ambiente ou para o futuro da própria empresa. Não seguimos tendências; planejamos para décadas, até séculos.
Quanto à inteligência artificial, vejo como uma ferramenta útil – por exemplo, para tarefas de escrita ou organização. Nós a utilizamos na empresa, mas ela nunca substituirá a parte criativa da perfumaria. Criar fragrâncias é algo que amamos demais para entregar a algoritmos.
Fachada da loja Farina e o Museu do Perfume com seu acervo, na Alemanha
Quais características você tem ao criar uma fragrância que poderia destacar como um legado dos perfumistas da sua família?
Claro que temos uma afinidade particular por notas cítricas, especialmente bergamota, já que Johann Maria Farina foi o primeiro a usá-la em uma composição moderna. Essa conexão com nosso legado ainda está muito presente na forma como trabalho.
Clareza e alegria são sempre centrais – uma fragrância deve ser leve, nunca sufocante ou excessivamente complexa. Também temos um grande amor pelos ingredientes naturais e pelo ofício em si. Um perfume deve ser acessível e claro em sua mensagem, algo que minha família sempre valorizou ao longo das gerações.
O que te inspira ao criar um novo perfume? E com quais matérias-primas você mais gosta de trabalhar?
Para mim, um perfume sempre começa com uma emoção ou um momento – um cenário e uma sensação que quero traduzir em cheiro. Estou capturando uma manhã de primavera após a chuva ou a atmosfera de uma noite de verão na Itália? Tem que parecer autêntico e evocar esse clima com clareza.
Além da bergamota, o jasmim é provavelmente o meu favorito pessoal. Mas admito que é difícil escolher, pois almíscar, néroli, âmbar e todas as outras notas cítricas também são incrivelmente inspiradoras de trabalhar
Que conselho você daria a quem deseja e sonha em se tornar um perfumista? E quais as novidades que podemos esperar para o segundo semestre na loja Farina?
Para quem sonha em se tornar perfumista, meu primeiro conselho seria: comece a treinar o nariz, não importa a idade. Isso começa no dia a dia – vá a perfumarias e sinta tudo o que puder, mas também cheire sua comida antes de comer, ou até mesmo o detergente da roupa. Qualquer coisa que ajude a construir uma memória olfativa.
Se você realmente quer seguir esse caminho, frequentar uma escola de perfumaria geralmente é essencial – na França, por exemplo, embora alguns programas exijam o idioma francês. E muitas pessoas não percebem que uma base científica também costuma ser necessária. Mas além de tudo isso, é uma profissão maravilhosa e uma indústria inspiradora, onde a criatividade não tem limites. Acredite no seu sonho e depois trabalhe duro para torná-lo realidade.
Quanto às novidades da Farina: acabamos de lançar o Farina Atelier, onde, pela primeira vez, oferecemos workshops abertos ao público para que as pessoas possam criar sua própria Eau de Cologne. Esse projeto tem um significado especial para mim pessoalmente, e estou animada para compartilhar essa experiência com mais visitantes nos próximos meses.
Fotos: Divulgação Farina
Publisher e Diretor Criativo: Sérgio Oliver
Supervisão de texto: André Terto
Arte gráfica e diagramação: Danni Chris
