NOVA EDIÇÃO:
JENNIFER CSASZNIK
Onde o perfume ganha voz
por: SÉRGIO OLIVER
Ela construiu uma trajetória sólida no universo da perfumaria ao unir sensibilidade criativa e visão estratégica. Com formação em publicidade, sua abordagem vai além da fragrância como produto: ela enxerga o perfume como narrativa, experiência e expressão de identidade. Ao longo de sua carreira em diferentes casas de fragrâncias, desenvolveu um olhar apurado capaz de conectar tendências globais, comportamento do consumidor e construção de marca de forma precisa e relevante.
Hoje, como diretora de marketing da OAK Fragrances, Jennifer lidera uma comunicação que ultrapassa o discurso tradicional e convida o consumidor a sentir antes mesmo de experimentar. Sua assinatura está na tradução do invisível em linguagem emocional e visual, transformando notas olfativas em sensações, memórias e rituais de autocuidado.
Atenta às transformações do mercado, ela acompanha de perto o movimento que reposiciona o perfume como parte essencial do bem-estar cotidiano, expandindo sua presença para além do uso pontual e integrando-o à rotina. Sua visão aponta para um futuro onde a perfumaria se torna cada vez mais humana, sensorial e conectada com a vida real.
Mais do que criar campanhas, Jennifer constrói experiências. Mais do que comunicar fragrâncias, ela revela histórias que despertam desejo, conexão e pertencimento.
Minha formação em publicidade foi fundamental para construir uma visão mais estratégica dentro do universo das fragrâncias, principalmente porque me ensinou a enxergar o produto além da fórmula, como um território de marca, comportamento e desejo.
Desde o início, passei a entender fragrâncias não apenas como combinações olfativas, mas como narrativas sensoriais capazes de gerar conexão emocional, posicionamento e valor percebido.
Essa base me trouxe uma sensibilidade maior para tendências, leitura de consumidor e construção de conceito. Ao invés de pensar somente no “cheiro”, penso no contexto completo: público-alvo, momento de uso, linguagem visual, storytelling e até o potencial de viralização. Isso permite que cada criação seja mais alinhada com o mercado e mais relevante comercialmente.
Você construiu uma carreira sólida trabalhando com marketing em diferentes casas de fragrâncias. Quais aprendizados mais marcaram essa jornada?
Minha experiência em diferentes casas de fragrâncias ampliou ainda mais essa visão. Cada ambiente trouxe aprendizados específicos, desde processos criativos distintos até diferentes formas de interpretar briefings, desenvolver pirâmides olfativas e traduzir tendências globais para realidades locais. Esse repertório me ajudou a conectar o lado técnico da perfumaria com o lado estratégico do negócio.
Ter passado por múltiplas casas também me deu uma leitura mais clara sobre posicionamento de mercado: entender como cada empresa se diferencia, quais caminhos olfativos são explorados, como as marcas constroem identidade e como tendências são absorvidas ou antecipadas. Isso contribuiu diretamente para uma visão mais crítica e, ao mesmo tempo, mais assertiva na criação.
O mercado de perfumaria exige sensibilidade e estratégia em igual medida. Como você equilibra emoção, storytelling e posicionamento de marca em suas campanhas?
Tudo começa pelo posicionamento de marca. Antes de qualquer ideia criativa, eu defino: qual é o território dessa fragrância? Ela é sensual, acolhedora, aspiracional, divertida? Está mais próxima da perfumaria fina, do gourmand acessível ou de um frescor funcional? Esse direcionamento funciona como um “filtro estratégico” que orienta todas as decisões seguintes.
O storytelling entra como uma ponte e é ele que organiza a emoção dentro de um discurso coerente com a marca. Eu costumo trabalhar com narrativas simples, mas altamente sensoriais e visuais, que consigam ser desdobradas em múltiplos pontos de contato de forma propositiva: nome, embalagem, campanha, textura, cor e até o tipo de brilho do produto (como dourado mais quente para gourmand ou prata espelhado para algo mais “glass skin”).
Com essa base definida, entro na emoção. Aqui é onde a fragrância ganha vida. Eu traduzo a pirâmide olfativa em sensação: conforto, desejo, energia, mistério, nostalgia. Não é sobre listar ingredientes, mas sobre o que a pessoa sente ao usar. Esse é o ponto-chave para gerar conexão real, porque o consumidor não compra notas, ele compra sensação e identidade.
Hoje, como diretora de marketing da OAK Fragrances, quais são os principais pilares que orientam a comunicação da casa?
Minha intenção é elevar a OAK Fragrances para um território mais criativo, estratégico e, principalmente, instigante. O caminho não é só “comunicar melhor”, mas comunicar com a intenção de provocar curiosidade. Isso muda completamente a lógica.
Não comunicamos apenas fragrâncias; comunicamos experiências. Tudo parte da tradução do olfativo em linguagem visual e emocional: textura, brilho, cor, temperatura da fragrância (quente, fresca, envolvente). Esse pilar garante que o consumidor “sinta” antes mesmo de experimentar.
O time de “Os Criativos” ganha força justamente na união de dois olhares complementares: estratégia e sensorial. De um lado, Jennifer Csasznik, na Direção de Marketing, traduz criatividade em comportamento, tendência e desejo em direcionamento claro de marca. Ela entende o que o consumidor busca, não apenas produto, mas experiência, identidade e conexão emocional. Do outro, Rafael Pataca, atuando como Perfumista Técnico Criativo, transforma essas direções em linguagem olfativa e sinestésica. Ele cria fragrâncias que não só perfumam, mas contam histórias, despertam memórias e provocam sensações. Essa conexão é onde a mágica acontece e se torna mutável e real. Juntos, eles elevam a fragrância a um território criativo e sinestésico, onde cheiro vira imagem, sensação vira conceito e produto vira experiência. O marketing guia o significado, enquanto a perfumaria materializa o invisível. O resultado não é apenas uma fragrância. É uma construção sensorial completa, pensada para ser sentida, lembrada e vivida.
Na sua visão, quais movimentos e tendências estão transformando o marketing de fragrâncias atualmente?
O marketing de fragrâncias vive um momento de transformação profunda, impulsionado por mudanças no comportamento do consumidor e por uma nova forma de enxergar o papel do perfume no cotidiano. Mais do que um item de finalização, a fragrância passa a ocupar um espaço estratégico dentro dos rituais de autocuidado, consolidando-se como uma extensão do bem-estar físico e emocional.
A crescente valorização do self-care tem reposicionado o perfume como parte ativa da rotina diária. Consumidores buscam experiências sensoriais que acompanhem diferentes momentos do dia, da energia da manhã ao relaxamento noturno, transformando o uso da fragrância em um gesto intencional. Nesse contexto, o perfume deixa de ser apenas um acessório e passa a ser percebido como um aliado no equilíbrio emocional.
Além disso, a performance do produto assume um papel central na decisão de compra. A busca por fragrâncias de longa duração, com maior projeção e fixação, tornou-se um dos principais critérios de valor para o consumidor. Nesse cenário, atributos técnicos passam a ser comunicados de forma mais evidente, reforçando a percepção de qualidade e justificando o investimento.
Por fim, observa-se uma expansão significativa da fragrância para além do perfume tradicional. Categorias comohair mists, body splashes e fragrâncias para o ambiente reforçam a construção de um universo olfativo mais amplo, no qual a marca acompanha o consumidor em diferentes aspectos de sua rotina.
Como traduzir em linguagem visual e narrativa algo tão sensorial e invisível quanto o perfume?
O ponto de partida está na tradução sensorial. Se o perfume não pode ser visto, ele precisa ser sentido visualmente. Isso se constrói a partir de códigos estéticos que evocam textura, temperatura e densidade. Fragrâncias gourmand, por exemplo, são frequentemente representadas por elementos cremosos, dourados e envolventes, enquanto composições frescas ganham forma em transparências, líquidos em movimento e tons frios. Trata-se de criar uma equivalência visual para aquilo que o olfato percebe.
Outro elemento central é a narrativa emocional. Em vez de descrever notas olfativas de forma técnica, a comunicação contemporânea busca traduzir o perfume em sensação e experiência. Expressões como “calor envolvente”, “toque de pele” ou “frescor luminoso” substituem a simples listagem de ingredientes, aproximando o produto do universo emocional do consumidor. O storytelling, nesse contexto, funciona como ponte entre o invisível e o imaginável.
O consumidor de hoje está cada vez mais atento à autenticidade e propósito das marcas. Como isso impacta o desenvolvimento das estratégias da OAK?
Dentro da OAK Fragrances, optamos por uma comunicação mais humanizada, que nasce de uma mudança de perspectiva: deixar de falar apenas sobre produtos para começar a falar com pessoas, entendendo suas rotinas, emoções e desejos reais.
Essa abordagem se traduz em uma linguagem mais próxima e sensorial. A marca passa a se comunicar de forma mais emocional, valorizando experiências cotidianas e sentimentos genuínos. Em vez de discursos distantes ou excessivamente aspiracionais, a OAK busca criar identificação, trazendo o perfume para dentro da vida real do consumidor como parte de um momento de autocuidado, de uma memória afetiva ou de uma expressão pessoal.
Estamos explorando bastante esse território na tendência que criamos este ano, Spa e Flores. Essa tendência vai além de uma estética bonita ou de uma fragrância floral. Ela parte de um espaço emocional muito claro: o bem-estar cotidiano. A ideia não é vender apenas fragrâncias, mas propor pequenos rituais de autocuidado que cabem na rotina real das pessoas. É o momento de desacelerar, respirar e se reconectar.
Existe algum lançamento, campanha ou projeto da sua carreira do qual você tenha especial orgulho? O que o tornou memorável?
Ao longo de quase três décadas de atuação, escolher um único projeto como o mais marcante se torna, de fato, uma tarefa difícil. Cada lançamento, cada campanha e cada marca com a qual tive a oportunidade de contribuir carregam um significado próprio dentro da minha trajetória. São experiências que, somadas, construíram não apenas repertório, mas também uma visão mais ampla e sensível do mercado.
Mais do que um momento específico, o que me traz orgulho é justamente essa consistência ao longo do tempo, a capacidade de evoluir acompanhando as transformações do consumidor, das tendências e da própria indústria de fragrâncias, sem perder a essência criativa e estratégica. Cada projeto representou um aprendizado, seja no desenvolvimento de conceitos mais inovadores, na construção de marcas mais desejadas ou na adaptação a diferentes realidades de mercado.
A vivência em diferentes contextos e casas de fragrâncias também foi determinante. Ela permitiu ampliar o olhar, entender diferentes posicionamentos e aprofundar a conexão entre criação e estratégia. Isso fez com que cada entrega fosse mais completa, mais alinhada e mais relevante.
Que conselho você daria para profissionais de marketing que desejam ingressar no universo da perfumaria?
Para quem deseja ingressar no universo da perfumaria, meu principal conselho é: construa repertório técnico, sensorial e cultural. É um mercado que exige sensibilidade, mas também muita estratégia.
O primeiro passo é buscar conhecimento de forma constante. Entender famílias olfativas, pirâmides, tendências e comportamento do consumidor faz toda a diferença. Mas, além da teoria, é essencial treinar o olhar e o olfato: testar fragrâncias, comparar, analisar o porquê de um produto funcionar ou não no mercado.
Outro ponto fundamental é aproveitar ao máximo oportunidades de feiras e experiências internacionais, como a Cosmoprof Bologna. Esses eventos ampliam muito a visão estratégica, porque permitem contato direto com inovação, novos conceitos, ingredientes e movimentos globais que ainda nem chegaram ao Brasil. Viagens, quando possíveis, também ajudam a entender diferentes culturas olfativas e repertórios estéticos.
Por fim, tenha curiosidade e esteja aberto a aprender continuamente. O mercado de fragrâncias está em constante transformação, e quem evolui junto consegue não apenas acompanhar, mas também antecipar movimentos.
Olhando para o futuro, como você imagina a evolução da comunicação das casas de fragrâncias nos próximos anos?
Não tem como prever o futuro com precisão, ainda mais em um cenário tão dinâmico como o atual. Mas, observando os movimentos que já estão acontecendo, acredito que o caminho da comunicação nas casas de fragrâncias, como a OAK Fragrances, passa cada vez mais por humanizar aquilo que não se pode ver, de forma inspiradora e criativa.
O grande desafio sempre foi traduzir o invisível. E, no futuro, isso deve ser feito com ainda mais proximidade e sensibilidade. A comunicação tende a se afastar de discursos técnicos ou excessivamente aspiracionais para se aproximar de algo mais real, mais cotidiano, conectado às emoções, aos rituais e às experiências do consumidor.
Humanizar, nesse contexto, é tornar o perfume mais compreensível e mais íntimo. É falar de sensação em vez de composição, de memória em vez de fórmula.
Ao mesmo tempo, vejo uma comunicação mais curiosa e provocativa. Em um mercado onde tudo já foi dito de muitas formas, o diferencial estará em como contar: com mais sensibilidade, mais intenção e, principalmente, mais verdade.
No fim, o futuro não será sobre tornar uma fragrância visível, mas sobre torná-la sentida, vivida e lembrada de uma forma cada vez mais próxima, humana e inspiradora.
Fotos: Tamiris Durães
Publisher e Diretor Criativo: Sérgio Oliver
Supervisão de texto: André Terto
Arte gráfica e diagramação: Danni Chris
