NOVA EDIÇÃO:

Perfumista GISELE RIBEIRO
O TALENTO POR TRÁS DA CRIAÇÃO DE UMA FRAGRÂNCIA

por: SÉRGIO OLIVER

A trajetória de Gisele Ribeiro na perfumaria se desenha como uma narrativa sensorial, onde curiosidade e sensibilidade conduzem cada capítulo. Foi entre frascos e matérias-primas, ainda no laboratório, que nasceu seu olhar atento, capaz de transformar ingredientes em composições que ultrapassam o olfato e alcançam a emoção. Cada criação surge como uma história invisível, cuidadosamente construída entre técnica e intuição. Hoje, na Royale Fragrâncias, Gisele imprime sua assinatura em fragrâncias que unem inovação, performance e identidade.

Sua trajetória revela uma busca artística pelo equilíbrio: entre sofisticação e tecnologia, entre tendência e autenticidade, entre o que se sente e o que se lembra. Para ela, criar um perfume é dar forma ao invisível, é traduzir sensações em acordes, memórias em notas, e transformar conceitos em experiências que envolvem e permanecem.

Em um mercado em constante movimento, sua perfumaria se destaca pela elegância e profundidade, onde ciência e emoção se encontram para dar vida a fragrâncias que não apenas perfumam, mas contam histórias e deixam sua marca no tempo.

    Como nasceu a sua paixão pelo universo da perfumaria e em que momento você decidiu transformar isso em profissão?

    Minha paixão pela perfumaria nasceu em 1996, dentro de uma casa de fragrâncias no Rio de Janeiro, a RACE Essências, no laboratório de P&D. Não foi algo planejado; costumo dizer que foi um encontro que mudou completamente a rota da minha vida.

    Iniciei minha trajetória como assistente do perfumista Jorge Nascimento, da antiga Florasynth, posteriormente incorporada à H&R e à Symrise. No laboratório, sendo responsável pelas pesagens das formulações, tive contato direto com centenas de matérias-primas. Cada ingrediente me despertava curiosidade: líquidos, resinas, cristais, todos com características únicas que me fascinavam profundamente. Foi ali que nasceu o meu desejo de entender como essas matérias-primas interagiam entre si para dar origem a grandes composições olfativas. Diante dessa combinação entre ciência e o sensorial, decidi mergulhar nesse universo de forma intensa. Passei a estudar de forma autodidata, explorando famílias olfativas, construções de acordes e o papel de cada ingrediente dentro da pirâmide olfativa.

    O ponto de virada veio quando meus gestores passaram a perceber que eu não estava apenas executando tarefas técnicas; eu já demonstrava um olhar criativo. Comecei a desenvolver combinações, exercitar minha memória olfativa e até me arriscar na criação de contratipos.

    Foi então que recebi o convite para me tornar trainee de perfumista. Nesse momento, tive a certeza de que a perfumaria não seria apenas uma profissão, mas o caminho que eu escolheria para a minha vida. Desde então, me realizo nessa profissão, onde matérias-primas são capazes de gerar emoção por meio de composições olfativas. Essa é a essência do meu trabalho como perfumista.

    Quais foram as maiores inspirações olfativas que marcaram a sua trajetória como perfumista?

    Minhas maiores inspirações olfativas vieram de diferentes momentos da minha trajetória, desde o contato com grandes clássicos da perfumaria, que me fascinam até hoje pela riqueza de suas construções e pelas histórias que carregam, até o estudo profundo das matérias-primas, tanto sintéticas quanto naturais.

    No início, fui muito impactada por fragrâncias icônicas que traduzem uma construção olfativa impecável e alta sofisticação, como Angel, reconhecido como um marco da perfumaria gourmand, e J’adore, um floral branco frutado que trouxe uma visão moderna da feminilidade no final do milênio. Essas criações me despertaram para o poder de uma fragrância em contar histórias e construir identidade, cada uma com uma assinatura muito bem definida.

    Hoje, não consigo criar sem essa dimensão narrativa. Busco sempre estabelecer uma conexão entre as minhas composições e o universo do consumidor, traduzindo o que o cliente deseja comunicar em forma de fragrância. Sou apaixonada por isso!!!

    Ainda assim, mais do que as fragrâncias prontas, minha maior escola sempre foram os ingredientes sintéticos e naturais. Ao longo do tempo, desenvolvi uma afinidade especial por ingredientes que entregam elegância e sofisticação, como o jasmim, o lírio-do-vale, o âmbar e as madeiras brancas, elementos que hoje fazem parte da minha assinatura olfativa.

    O Brasil também é uma fonte inesgotável de inspiração para mim. A riqueza dos nossos ingredientes naturais, como laranja pera, mandarina verde, bergamota, cumaru, pimenta-rosa, aliada à nossa diversidade cultural, influencia diretamente o meu olhar criativo.

    No final, minhas inspirações não vêm de um único lugar, mas de fatores como técnica, emoção e muita disciplina. É isso que guia cada criação que desenvolvo.

    Na sua visão, o que diferencia uma fragrância comum de um perfume verdadeiramente memorável?

    Na minha visão, o que diferencia uma fragrância comum de um perfume verdadeiramente memorável está na sua capacidade de criar identidade. Uma fragrância comum pode até ser agradável, mas muitas vezes é linear demais, previsível e facilmente esquecida. Já um perfume memorável possui construção, evolução (muito bem arquitetada) e assinatura. Ele tem uma construção olfativa bem definida, com transições entre topo, corpo e fundo que precisam contar uma história ao longo do tempo.

    Além da técnica na execução, existe um ponto fundamental, que é a emoção e a desejabilidade. Um perfume memorável desperta desejo, sensações, ativa memórias e cria conexão com quem usa.

    Hoje, a tecnologia também tem um papel essencial nesse processo. O uso de moléculas com efeito “blooming”, por exemplo, permite que a fragrância tenha momentos de reativação ao longo do uso, criando uma sensação de frescor contínuo e presença dinâmica. Já os “natural boosters” potencializam a performance dos ingredientes naturais, ampliando sua difusão e trazendo mais autenticidade à composição.

    Outro aspecto importante é a assinatura. Fragrâncias memoráveis têm personalidade, não tentam ser apenas tendência ou repetição. Elas trazem um diferencial, seja pela construção de acordes, pelo uso inteligente dos materiais ou pela forma como integram tecnologia e sensorialidade.

    E, por fim, existe o equilíbrio. Um grande perfume é aquele que consegue unir criatividade, técnica e intenção. Nada está ali por acaso; cada ingrediente e cada escolha tecnológica têm um papel claro dentro da composição.

    No final, um perfume memorável é aquele que deixa rastro, presença e, principalmente, lembrança.

    Como funciona o seu processo criativo na hora de desenvolver uma nova fragrância, da ideia inicial ao perfume finalizado?

    O meu processo criativo começa sempre pelo entendimento profundo do briefing. Busco compreender não apenas o que o cliente pede, mas o que ele quer comunicar, o público-alvo, o posicionamento e a emoção que aquela fragrância precisa transmitir. Eu repito isso todos os dias.

    A partir disso, começo a traduzir esse conceito em formulação. Muitas vezes, parto de uma ideia central, que pode ser uma matéria-prima, um acorde ou até uma sensação, como um efeito solar, cremoso, de mata, de jardim ou de frescor. É como definir o DNA da fragrância. Na sequência, estruturo a construção olfativa. Gosto de trabalhar a fragrância de forma que ela tenha evolução e personalidade, sempre buscando equilíbrio entre impacto inicial e permanência.

    Durante o desenvolvimento, junto com o time de avaliação, realizo diversos testes e ajustes finos. Avaliamos difusão, fixação e comportamento em diferentes bases, o que é fundamental para o sucesso do projeto, e também o desempenho sensorial ao longo do tempo, incluindo os “claims”. Nesse momento, também integro tecnologias que potencializam a experiência, como moléculas com efeito “blooming”, que proporcionam reativações da fragrância, e “natural boosters”, que ampliam a performance e autenticidade dos ingredientes naturais.

    Outro ponto muito importante para mim é a sofisticação da composição. Quem me conhece consegue identificar uma criação minha por esse refinamento; é parte da minha assinatura. Independentemente da categoria, busco trabalhar texturas, transparências e combinações que elevem a fragrância.

    E, por fim, vem a etapa de validação, tanto técnica quanto sensorial. Ajusto o que for necessário até que a fragrância esteja totalmente alinhada com o conceito inicial e com a performance esperada. Para mim, criar uma fragrância é transformar esse abstrato em uma experiência sensorial completa. É essa combinação que me move todos os dias em cada novo projeto.

    Existe alguma matéria-prima ou acorde olfativo que represente a sua assinatura pessoal? Por quê?

    Sim, e essa é uma pergunta que eu gosto muito de responder. Ao longo da minha jornada, fui construindo uma assinatura olfativa muito associada à sofisticação e ao refinamento das composições. Tenho uma afinidade especial por algumas moléculas que, para mim, funcionam como verdadeiras ferramentas de construção.

    O hedione e o Iso E Super, por exemplo, apesar de serem matérias-primas de grande escala e amplamente difundidas na indústria, são materiais que consigo explorar em diferentes combinações, trazendo luminosidade, difusão e uma transparência muito elegante às criações. De certa forma, eles são a base de grande parte do que desenvolvo.

    O ambrocenide também é uma matéria-prima que aprecio muito, por contribuir com uma base ambarada moderna, com presença e textura, sem sobrecarregar a composição, além de oferecer excelente performance em termos de “lasting”. Tenho utilizado bastante o cypriol, que considero um dos meus queridinhos do momento, justamente por agregar profundidade e um caráter levemente seco, sofisticado e contemporâneo. As lactonas entram como um contraponto interessante, trazendo uma sensação de conforto, com cremosidade e um aspecto envolvente, quase tátil, à fragrância.

    Não se trata de matérias-primas isoladas. Acredito que a minha assinatura esteja na forma como combino esses elementos. Busco sempre um equilíbrio nas composições; independentemente da categoria, procuro construir fragrâncias com textura, elegância e acabamento refinado.

    E existe algo que sempre me move no processo criativo, que é a busca pela desejabilidade. Eu procuro criar perfumes que despertem vontades: vontade de possuir, de usar, de sentir novamente, de se reconhecer naquele cheiro. Quem trabalha, ou já trabalhou comigo, reconhece essa assinatura com facilidade.

    Quais desafios você considera mais complexos no desenvolvimento de perfumes autorais no mercado atual?

    Na minha visão, um dos maiores desafios no desenvolvimento de perfumes autorais hoje é equilibrar criatividade com as exigências do mercado. Vivemos um momento em que há muita informação e inúmeras referências disponíveis, o que naturalmente leva a uma certa repetição olfativa. Criar algo verdadeiramente autoral, com identidade própria, sem percorrer caminhos já explorados, é um dos pontos mais complexos.

    Outro desafio importante está na adaptação às exigências regulatórias e técnicas. Restrições de matérias-primas, limites de uso e a crescente demanda por fórmulas mais seguras e sustentáveis exigem do perfumista um nível ainda maior de conhecimento e criatividade para manter qualidade, performance e consistência.

    Quando olhamos para a perfumaria autoral artesanal, esse desafio se intensifica. Existe uma liberdade criativa muito grande, o que é extremamente positivo, mas também a necessidade de traduzir essa liberdade em segurança, estabilidade, reprodutibilidade e desempenho. Ou seja, não basta que a fragrância seja interessante no conceito; ela precisa funcionar no uso.

    Além disso, o consumidor atual está mais exigente e informado. Ele não busca apenas um bom cheiro, mas uma experiência completa, que envolva identidade, performance, narrativa e, muitas vezes, tecnologia aplicada, como difusão e longa duração. O tempo também se torna um fator crítico. O mercado opera em ciclos cada vez mais rápidos, exigindo agilidade no desenvolvimento sem comprometer a profundidade criativa.

    E, por fim, acredito que um dos maiores desafios seja manter a autenticidade. Em um cenário com tantas tendências e influências, criar algo que realmente represente uma identidade, seja da marca ou do próprio perfumista, é o que, de fato, diferencia um perfume autoral.

    Como você enxerga a relação entre perfume, memória afetiva e identidade pessoal?

    Vejo essa relação de forma muito orgânica. O olfato é o sentido mais conectado às nossas emoções, então ele tem essa capacidade única de acessar lembranças de forma imediata. Muitas vezes, um cheiro simples, como o de um bolo saindo do forno, um café fresco ou até o perfume de alguém próximo, já é suficiente para nos transportar para momentos muito específicos da nossa vida.

    E, quase sempre, essas lembranças vêm acompanhadas de pessoas. Pode ser o cheiro de alguém querido, de um ambiente familiar ou até de uma fase marcante da vida. O perfume acaba registrando essas experiências de uma forma muito profunda.

    Por isso, ele vai além do sensorial e se conecta diretamente com a identidade. A fragrância que escolhemos usar diz muito sobre quem somos, sobre o que queremos comunicar e sobre o momento que estamos vivendo. É uma forma silenciosa, mas muito poderosa, de expressão.

    Enxergo o papel do perfumista como o de um facilitador, alguém que cria essas pontes entre cheiro, emoção e identidade. Não se trata apenas de desenvolver uma fragrância agradável, mas de construir algo que conte uma história, que seja lembrado e sentido de forma única por cada pessoa. Costumo dizer que um perfume é uma memória viva, que acompanha a nossa história e ajuda a contar quem somos.

    Na sua opinião, quais tendências estão ganhando força no universo da perfumaria contemporânea?

    A perfumaria contemporânea vive um momento de forte influência de perfis olfativos mais intensos e estruturados, principalmente impulsionados pelo crescimento da perfumaria árabe no mercado brasileiro. Essas fragrâncias se destacam pelo uso de bases ambaradas robustas, madeiras marcantes e acordes adocicados envolventes, com alta difusão e fixação.

    Existe uma construção muito focada em impacto e rastro, com uso frequente de matérias-primas de grande projeção, o que atende diretamente à preferência do consumidor brasileiro por fragrâncias mais presentes.

    Além do perfil olfativo, existe um ponto importante de valor percebido. A perfumaria árabe, muitas vezes, entrega alta performance, projeção, intensidade e fixação, com um custo mais acessível quando comparada à perfumaria de design e nicho. Isso gera no consumidor uma sensação de maior custo-benefício, aumentando a desejabilidade e acelerando sua adoção no mercado.

    Outro ponto relevante é a evolução dos gourmands, que continuam em alta, mas com construções mais elaboradas, combinando notas cremosas, ambaradas e amadeiradas, muitas vezes com facetas mais secas ou menos açucaradas, trazendo mais modernidade, como as sobremesas viralizadas no TikTok.

    Além disso, a perfumaria nacional tem se destacado ao incorporar matérias-primas com identidade brasileira, principalmente frutas e notas tropicais, criando um diferencial dentro desse cenário global mais padronizado.

    Entre as fragrâncias que você já criou, existe alguma que tenha um significado emocional especial para você?

    Sim, é difícil escolher apenas uma, porque, ao longo da minha trajetória, tive a oportunidade de desenvolver fragrâncias para marcas importantes, como Alfaparf, Embelleze, Skala, Niely, Granado, entre outras, além de atuar em diferentes segmentos, como perfumaria fina, “personal care” e “home care”.

    Mas existe uma criação que tem um significado muito especial para mim: a minha primeira fragrância. Ela se chamava Citric Oil, desenvolvida para um reparador de pontas. Naquele momento, eu ainda estava em processo de aprendizado e acompanhava de perto o perfumista responsável pelo projeto. Com o tempo, fui me envolvendo cada vez mais, observando, sugerindo e contribuindo tecnicamente nas formulações. Até que, em um determinado momento, fui convidada a desenvolver a minha própria versão e, para a minha alegria, a fragrância foi aprovada.

    Esse foi um marco muito importante na minha carreira, porque não foi apenas a aprovação de uma fragrância; foi o reconhecimento de um olhar, de uma construção, de um caminho que estava começando a se consolidar dentro da perfumaria. Eu nunca esqueci a emoção daquele dia. Foi ali que entendi o que significa ver uma criação ganhar vida no mercado, sair do laboratório, chegar ao consumidor e fazer parte da rotina das pessoas.

    A partir desse momento, eu nunca mais deixei de acreditar no meu crescimento profissional e em tudo o que ainda poderia construir dentro da perfumaria.

    Após toda a sua trajetória na perfumaria, hoje você integra o time da Royale Fragrâncias. Como essa experiência tem contribuído para o seu trabalho e como você enxerga o posicionamento da empresa no mercado?

    Estar hoje na Royale Fragrâncias tem sido uma experiência muito alinhada com o momento que eu vivo como perfumista. A Royale é uma casa com mais de 30 anos de mercado, liderada pelo Sr. Jesus Paiva, que tem uma base técnica muito sólida e, ao mesmo tempo, uma proximidade real com o mercado. Existe agilidade no desenvolvimento e na fabricação, mas sempre com um olhar muito criterioso para a qualidade e performance das fragrâncias, e isso, para mim, faz toda a diferença.

    Dentro desse cenário, o meu papel é justamente trazer composições que integrem tecnologia, performance e assinatura, sempre antecipando movimentos e tendências de mercado para gerar insights estratégicos aos nossos clientes e impulsionar novos lançamentos. Vejo a Royale como uma empresa que entende que fragrância não é só cheiro; ela precisa trazer resultado e custo competitivo dentro da categoria em que foi designada a perfumar. E é exatamente isso que eu busco entregar em cada projeto do qual participo.

    Que conselho você daria para quem sonha em ingressar no mundo da perfumaria e construir uma carreira de sucesso?

    O primeiro conselho que eu daria, não só para quem quer ser perfumista, mas para todos os profissionais da área de fragrâncias, como avaliadores, marketing e desenvolvimento, é: tenham curiosidade e disciplina. A perfumaria exige estudo constante. É fundamental conhecer as matérias-primas, cheirar, comparar e treinar o olfato todos os dias. Também é muito importante acompanhar os movimentos do mercado e estar atento aos lançamentos, porque tudo evolui o tempo todo, e perfumaria é prática diária; quanto mais você cheira, mais você evolui.

    Fotos: Emy Miyahara
    Publisher e Diretor Criativo: Sérgio Oliver
    Supervisão de texto: André Terto
    Arte gráfica e diagramação: Danni Chris