CAPA DO MÊS:
CARMITA MAGALHÃES
A ARTE DE TRANSFORMAR EMOÇÕES EM PERFUMES
por: SÉRGIO OLIVER
No universo encantado da perfumaria, poucos nomes evocam tanta admiração quanto Carmita Magalhães. Desde o início de sua trajetória, ela ocupa um lugar de destaque no seleto time de mestres da DSM-Firmenich, onde transforma matérias-primas em narrativas sensoriais que tocam a alma. Cada criação sua é um encontro entre arte e emoção, traduzido em fragrâncias que transcendem o tempo e se eternizam na memória. Carmita não apenas assina perfumes, mas também conta histórias invisíveis que se revelam a cada borrifada de uma fragrância.
Como iniciou sua carreira no mundo das fragrâncias, e o que a motivou a se tornou uma perfumista?
Perfumista não foi uma carreira com que eu sonhei, eu sequer conhecia essa profissão. Nasci em uma época diferente, sem internet, sem celular… Ninguém falava sobre perfume, apenas usava.
Contar como me tornei perfumista é digno de uma telenovela, cheia de capítulos emocionantes e reviravoltas.
Resumindo, estudei Química na Universidade e, paralelamente, uma conhecida percebeu que eu tinha uma habilidade especial com o olfato. Ela tinha ouvido falar da ISIPCA, uma renomada escola de perfumaria localizada na França.
Decidi prestar o concurso e, para minha surpresa, passei. Em seguida, fiz um estágio em uma Casa de Perfumaria, onde logo me perguntaram se eu gostaria de entrar como Perfumista Júnior. Estava cheia de dúvidas, mas o interessante é que quem me selecionou não tinha nenhuma. Confiei e aceitei. Após dois dias, nunca mais pensei em fazer outra coisa.
Essa jornada inesperada e fascinante me levou a descobrir uma paixão que eu nem sabia que existia. Hoje, cada fragrância que crio é uma expressão dessa descoberta e uma celebração da arte da perfumaria.
Como foi sua primeira criação? Poderia nos descrever a sensação desse momento?
Minha primeira criação… faz tempo … a primeira vez que trabalhei em um projeto criativo com total liberdade de pensamento. Foi um amadeirado especiado, e o nome do projeto era “A Volta ao Mundo em 80 Dias”. Para essa fragrância, selecionei matérias-primas de todos os continentes, representando o famoso livro de Jules Verne.
A sensação foi, e sempre é, a mesma: um sentimento de liberdade que, em certos momentos, me leva à maior euforia, e horas depois, a mais profunda sensação de solidão.
Além do briefing, quais são as principais inspirações que você busca ao criar uma nova fragrância?
Vejo dois tipos de inspiração bem definidos: a que vem de fora e a que surge dentro da casa de perfumaria.
Fora da casa: A inspiração que nutre e define quem você é. Ela está em todos os cantos e surge quando menos se espera, podendo vir de qualquer lugar ou viagem. Costumo dizer que ser perfumista é ser o escritor das histórias dos outros, das histórias do dia a dia. O que me inspira são as viagens; quando viajo, gosto de andar sem rumo pelas ruas, entrar nas lojas, descobrir novos ingredientes, novas bebidas, novas sobremesas, novos costumes… As possibilidades são infinitas. Certas pessoas, fotos e revistas também me inspiram profundamente.
Dentro da casa: A nossa maior inspiração é o palette do Perfumista, que está em constante evolução. Na DSM-Firmenich, amo essa parte do trabalho. Nosso palette é vivo, sempre evoluindo com as necessidades, tecnologias e tendências. Adoro partir de um ingrediente, colocá-lo no centro das atenções e trazer uma assinatura única à minha criação.
Essa dualidade de inspirações, tanto externas quanto internas, é o que torna a perfumaria uma arte tão rica e dinâmica. Cada fragrância é uma nova história, uma nova descoberta, uma nova expressão de criatividade.
Existe alguma matéria-prima que não pode faltar em suas criações e quais são aquelas que você considera mais desafiadoras? E por quê?
Por que escolher uma quando tenho todas? O importante é encontrar o momento certo.
Vou ressaltar três pontos: captivos, queridinhos e os básicos.
Na DSM-Firmenich, temos a vantagem de possuir dois centros de criação de captivos e novas matérias-primas em Genebra e Grasse. Mesmo sem citar nomes específicos, estamos sempre desenvolvendo novas ideias olfativas para aprimorar as que já existem e criar aquelas que ainda estão por vir.
Sempre há os queridinhos, e eu tenho minhas preferências. Adoro florais fluidos, por isso não pode faltar hedione e hedione HC. Gosto de perfumes que brilham, e para isso, não pode faltar bergamota, pera, pimenta rosa e grapefruit. Além disso, adoro ambrox, patchouli e cypriol para um fundo sensual.
Vanilina, praliné, notas verdes básicas… É bom lembrar dessas matérias-primas que estão presentes em muitos perfumes e, como costumo dizer, menos é mais.
Cada uma dessas categorias tem seu valor e momento certo de brilhar. A chave está em saber quando e como utilizá-las para criar fragrâncias únicas e memoráveis.
Como você equilibra a inovação com a tradição na hora de criar novas fragrâncias?
Essa é uma pergunta difícil, e não vou dar uma resposta direta porque não é possível quantificar. Tenho os dois, e o melhor é usar o melhor dos dois mundos para criar o melhor resultado.
Gostaria de deixar essa pergunta em aberto, porque separar tradição e inovação não faz sentido quando, no meu dia a dia, o que mais vejo é que a inovação de hoje se torna a tradição de amanhã.
Quais são as tendências mais notáveis que você tem observado no mercado de perfumaria atualmente?
A rapidez com que as notas arábicas se desenvolveram no mercado internacional é impressionante.
A família frutal está se tornando cada vez mais notável e sofisticada, ganhando destaque e reconhecimento.
O crescimento das notas Boozy representa uma evolução do estilo gourmand, trazendo uma nova dimensão de complexidade e riqueza às fragrâncias.
Você criou o primeiro eau de parfum 100% natural para a marca dōTERRA, o Pūre. Como foi essa experiência?
Sim, foi um trabalho que exigiu muita paciência e colaboração com a dōTERRA.
Foi extremamente desafiador, pois trabalhamos em conjunto, respeitando o DNA da marca. Além disso, uma parte do projeto foi realizada durante a pandemia de COVID-19, o que adicionou ainda mais complexidade ao processo. Mas, no final, fizemos uma criação linda e a jornada foi realizadora para mim.
(Foto: Divulgação doTERRA)
Há alguns anos, não se citava o nome dos perfumistas em suas criações, mas, hoje, com o crescimento das redes sociais, falar sobre esses criadores tem um peso na divulgação do produto. Como você vê esse novo momento?
Nunca parei para pensar nisso, obrigada por perguntar. Pessoalmente, não dou muita importância. Mas acho interessante, pois reflete o desejo do consumidor de entender e conhecer mais sobre o assunto.
Dentre suas criações até hoje, você teria aquela que considere seu xodó e por quê?
Xodó? Todas, até mesmo as que não foram lançadas. Ao longo de uma carreira, a lista é longa.
Mas gostaria de agradecer à Casa Granado, Boticário, Natura, Avon, L’Occitane au Brésil e Tania Bulhões pelas mais belas recordações olfativas, processos criativos e trocas humanas.
Algumas das criações de Carmita Magalhães (Foto: Divulgação)
Qual perfume que você usa? Se não quiser revelar, nos diga qual a família olfativa que você mais gosta e por quê?
Acredite se quiser, eu uso o mesmo perfume desde os 16 anos. Ele é um Chypre, e de fato, essa é a minha família preferida.
Adoro notas amadeiradas e acredito que o Chypre seja a família mais versátil, desde os tempos antigos até os dias de hoje.
Qual o conselho que você daria para quem quer se tornar um perfumista e quais os desafios que essa pessoa irá encontrar pela frente?
Só tenho um conselho: é querer MUITOOO… e querer pelos motivos certos. O trabalho de Perfumista hoje é bem diferente de quando eu comecei, mas algumas coisas não mudam: ser curioso e gostar de aprender! Pois sempre acho que amanhã é que vou entender e saber tudo …e esse dia nunca chega.
Trabalhar a paciência e a resiliência, e ter um caráter bem positivo.
Fotos: Divulgação
Publisher e Diretor Criativo: Sérgio Oliver
Supervisão de texto: André Terto
Arte gráfica e diagramação: Danni Chris
