NOVA EDIÇÃO:

ALINE MALIUK
A LINGUAGEM INVISÍVEL DAS FRAGRÂNCIAS

por: SÉRGIO OLIVER

Aline Maliuk transforma o perfume em linguagem, percepção e presença. Perfumista e psicoaromaterapeuta clínica, construiu uma trajetória interdisciplinar que integra olfato, comportamento humano, ambiente, neurociência e identidade sensorial. Sua atuação vai além da criação de fragrâncias: ela desenvolve experiências olfativas capazes de despertar memória, emoção e comunicação não verbal. Com passagem pelas áreas da educação, design, aromaterapia e pesquisa comportamental, tornou-se referência em inteligência olfativa e perfumaria identitária. Seu trabalho une ciência, arte e sensibilidade para compreender como os aromas influenciam relações, espaços e emoções. Ao longo dos anos, desenvolveu metodologias próprias aplicadas em ambientes clínicos, corporativos e educacionais, sempre com foco na experiência humana. Para Aline, o perfume não é apenas uma fragrância: é expressão, narrativa e extensão invisível da identidade.

Você costuma dizer que o perfume é uma linguagem. O que exatamente isso significa para você?

Durante muito tempo, o perfume foi associado apenas à estética, ao luxo ou ao gosto pessoal. Mas, para mim, ele sempre representou algo muito maior. Eu vejo o perfume como uma forma de comunicação silenciosa, uma linguagem que atua antes mesmo das palavras.

Desde muito cedo, comecei a perceber, em mim e, posteriormente, nas outras pessoas, como determinados aromas alteravam a percepção, despertavam emoções, criavam memória e até influenciavam a maneira como as pessoas são percebidas socialmente.

Talvez por isso eu nunca tenha conseguido enxergar a perfumaria apenas como produto ou tendência. Sempre a enxerguei como construção de identidade, experiência e comportamento humano.

Ao longo da minha trajetória, principalmente por meio da observação das pessoas, comecei a perceber que o perfume raramente é uma escolha totalmente aleatória. Muitas vezes, ele funciona como extensão emocional da personalidade ou até da versão que aquela pessoa deseja sustentar diante do mundo.

E isso se conecta diretamente ao que hoje chamo de linguagem e inteligência olfativa: a capacidade de perceber como o olfato interfere nas relações humanas, nos ambientes, na memória, na comunicação não verbal e na construção de presença.

Acredito que o perfume revela algo muito mais profundo. É sobre a forma como sentimos, ocupamos espaços e desejamos ser lembrados. Talvez por isso ele tenha atravessado séculos ligado à espiritualidade, ao poder, à sedução, ao pertencimento e à representação simbólica das sociedades.

Sua relação com o olfato começou ainda na infância, de forma muito intuitiva. Em que momento você percebeu que essa conexão sensorial poderia se transformar em um caminho profissional?

Hoje vejo que, antes mesmo de entender o que era perfume, eu já observava o mundo pelos sentidos. Desde criança, eu tinha uma relação muito forte com cheiros, texturas, músicas e com a forma como as experiências mexiam emocionalmente comigo. Sempre ouvi histórias da minha família dizendo que eu era aquela criança curiosa, que queria experimentar tudo, sentir tudo e entender como as coisas funcionavam.

Minha relação com os aromas nunca foi apenas o uso. Eu observava como certos cheiros eram agradáveis e geravam reações, e como certos odores desagradáveis pareciam alterar completamente a percepção que eu tinha das pessoas e dos ambientes, mesmo quando aquilo não correspondia à realidade. Lembro de passar creme bem abaixo das narinas em situações assim; eu sempre tinha na bolsa, mochila ou no estojo.

Outra situação muito presente na minha memória é ver minha mãe preparando papinha de frutas, aveia e leite para minha irmã, que era bebê, e eu pensava: “se isso alimenta o corpo por dentro, talvez também possa ser bom para a pele e o cabelo”. Então, com o que sobrava, eu fazia máscaras faciais, hidratações naturais no cabelo e outras pequenas experiências sensoriais, sem entender que, muitos anos depois, isso se conectaria à cosmética funcional e à aromaterapia.

Aos 13 anos, aconteceu um episódio que hoje considero muito simbólico da minha trajetória. Influenciada por referências históricas da perfumaria, especialmente relatos ligados à Água da Rainha da Hungria, ao uso interno de fragrâncias naturais na Antiguidade e ao período histórico do Renascimento, e matérias de escola, eu quis experimentar essa ideia do perfume “de dentro para fora”. Existia ali uma curiosidade histórica, biológica e sensorial muito genuína.

Mas acredito que o momento em que essa conexão começou a ganhar um caminho profissional foi no ano 2000, quando entrei pela primeira vez em uma loja de perfumes importados. Fui comprar meu primeiro perfume importado com o meu dinheiro e tive a sensação muito clara de estar entrando em outro universo. Naquele mesmo dia, perguntei se estavam precisando de alguém para trabalhar e fui contratada.

Ali aconteceu algo muito importante: comecei a perceber padrões. Observava como determinadas pessoas se conectavam com certas notas olfativas, como o perfume funcionava quase como uma extensão silenciosa da identidade das pessoas. Em pouco tempo, me tornei gerente da loja, e aquilo deixou de ser apenas fascínio. Acho que, naquele momento, percebi que o olfato poderia, sim, se tornar um caminho de vida. Nesse contexto, precisei sair desse emprego, pois passei em concurso público na Prefeitura do RJ.

Ao longo da sua trajetória, você transitou entre áreas como educação, geografia, sociologia, design de interiores, fitoterapia e aromaterapia. Como essas diferentes formações contribuíram para a construção da sua visão atual sobre perfumaria?

Muitas vezes achei que eu podia estar mudando de direção o tempo todo. Hoje percebo que sempre existiu um fio condutor muito claro ligando todas essas áreas às minhas escolhas.

A geografia e, posteriormente, a gestão e planejamento ambiental me ensinaram a observar território, comportamento humano e, principalmente, a relação entre o ser humano e os recursos naturais presentes no ambiente.

Foi ali que comecei a entender que o ambiente não é apenas o espaço físico. Ele também é construído pela forma como as pessoas percebem, utilizam, conservam ou transformam esse meio.

De certa forma, essa visão acabou influenciando toda a minha atuação posterior, porque passei a enxergar os recursos naturais não apenas como elementos da natureza, mas também como ferramentas capazes de impactar experiência, comportamento, saúde emocional e percepção humana, pois não existe forma de dissociar o ser humano dos recursos naturais, seja qual for a esfera: alimentícia, tecnológica, saúde e tudo mais.

Na minha transição de carreira, em 2010, escolhi o design de interiores, e hoje vejo que ele me aproximou da experiência e da percepção sensorial dos espaços. Nesse momento, passei a gerir os espaços com seus recursos de forma mais estética, conceitual e bela, e hoje o design biofílico resgata exatamente essa minha forma integrada de ver, analisar e construir espaços.

A educação e a área das humanas me ensinaram observação humana profunda, comunicação e comportamento coletivo. Já a neuropsicologia e a aromaterapia ampliaram minha compreensão sobre emoções, sistema nervoso, memória e percepção, bem como a relação do ambiente interno de cada indivíduo e a forma como ele se comporta a partir de suas percepções e estímulos no ambiente externo.

Então, quando olho para minha atuação hoje, não vejo a perfumaria isolada. Eu vejo um campo interdisciplinar extremamente complexo. Para mim, perfume envolve biologia, história, química, arte, sociologia, geografia, neurociência, comportamento humano e até linguagem simbólica.

Talvez por isso minha forma de atuar seja diferente. Eu nunca consegui enxergar perfume apenas como produto. Sempre enxerguei como expressão humana, construção de identidade e ferramenta de percepção.

Sua experiência no varejo de perfumes parece ter sido um ponto-chave. O que aquele contato direto com o público te ensinou sobre comportamento e escolha olfativa?

Ensinou-me que as pessoas quase nunca escolhem perfume apenas pelo cheiro.

Naquela época, comecei a observar algo que depois acompanharia toda a minha trajetória: determinadas personalidades se repetiam nos mesmos grupos olfativos. Pessoas mais expansivas buscavam certas construções; pessoas mais introspectivas, inseguras ou sofisticadas buscavam outras. Existe um padrão emocional e comportamental muito interessante em cada escolha.

Percebi também que muitas pessoas escolhiam, e ainda escolhem, seus perfumes tentando comunicar algo que ainda não conseguiam expressar verbalmente. Às vezes, buscavam presença, pertencimento, sensualidade, força, delicadeza ou reconhecimento. Minha atuação na área das humanas por 18 anos me ajuda muito nessa compreensão e em outras vertentes cruzadas.

A loja que já mencionei foi meu primeiro grande laboratório humano dentro da perfumaria. Acho que ali nasceu minha percepção do perfume como linguagem não verbal.

Você utiliza o conceito de inteligência olfativa de uma forma muito particular. Como ela funciona dentro do seu trabalho?

Eu utilizo a inteligência olfativa como uma ferramenta de leitura humana, ambiental e comportamental.

Quando uma pessoa chega até mim, muitas vezes ela traz apenas uma queixa, um desejo ou uma necessidade aparente. Mas, a partir da observação da linguagem, da presença, do comportamento, da forma como ocupa os espaços e até das escolhas olfativas que já possui, começo a perceber padrões mais profundos.

A inteligência olfativa está justamente nessa capacidade de interpretar como o olfato pode atuar dentro daquela realidade específica.

Em alguns casos, o caminho será um psicoaroma voltado à regulação emocional. Em outros, uma assinatura olfativa ligada à construção de presença e identidade. Em determinadas situações, o trabalho acontece no ambiente corporativo, por meio da atmosfera sensorial e do impacto coletivo do espaço. E existem ainda casos ligados ao desenvolvimento pessoal, foco, estudo, memória, melhora do sono e comportamento.

Por isso, meu trabalho nunca esteve ligado apenas à criação de perfumes. O perfume, os aromas e os ambientes são ferramentas dentro de uma leitura muito maior sobre percepção e relações humanas.

Você fala muito sobre a integração entre corpo, ambiente e identidade. Como essa tríade se manifesta, na prática, no seu trabalho?

Essa integração acontece porque entendo que o ser humano não existe separado do ambiente que ocupa nem da forma como percebe a si mesmo. E não existe ambiente neutro. Todo ambiente está carregado de estímulos que são percebidos e conduzem a reações, sejam boas ou ruins.

Na clínica, por exemplo, observo como sono, rotina, ambiente físico, estímulos sensoriais e estado emocional influenciam diretamente o funcionamento mental e emocional da pessoa. Assim, os psicoaromas não são criados apenas para “cheirar bem”, mas para atuar dentro de uma lógica de reorganização sensorial e emocional, atuando diretamente sobre estímulos ligados ao sistema nervoso e às respostas emocionais, ou seja, o ambiente interno da pessoa.

No ambiente corporativo, isso também acontece. Muitas vezes, o espaço físico comunica tensão, excesso de estímulo, frieza ou desconexão, e isso afeta diretamente comportamento, produtividade e saúde emocional das equipes. Assim, o olfato passa a ser uma camada estratégica dentro da experiência daquele ambiente.

E, na perfumaria identitária, essa tríade talvez fique ainda mais evidente, porque o perfume passa a representar presença, narrativa e identidade coletiva. Principalmente quando trabalho com figuras públicas e eventos culturais, existe uma preocupação muito grande em transformar valores, história e representação em linguagem sensorial.

A aromaterapia e a psicoaromaterapia ampliaram sua atuação para o campo clínico. Como os aromas podem atuar na regulação emocional e no sistema nervoso?

Os aromas têm uma capacidade muito interessante de acessar áreas cerebrais ligadas à memória, à emoção, ao comportamento e à resposta fisiológica. Assim, quando utilizamos matérias-primas corretas, dentro de uma abordagem técnica e individualizada, conseguimos trabalhar suporte emocional, qualidade do sono, ansiedade, excesso de estímulo mental e outros estados ligados ao sistema nervoso, aplicados tanto às pessoas quanto aos pets, extensão cada vez mais presente nas famílias.

Mas eu sempre gosto de reforçar que meu trabalho não é baseado apenas na sensação subjetiva do “cheiro agradável”. Existe toda uma observação relacionada à composição química dos óleos essenciais, às respostas neurofisiológicas e ao contexto emocional daquela pessoa, e foi exatamente por isso que busquei também a neuropsicologia, para que essas observações ligadas aos estímulos olfativos ganhassem percurso, denominação e compreensão da atuação em nosso ambiente interno, o neural. E isso se aplica aos perfumes funcionais, a partir do momento em que são construídos apenas com óleos essenciais, resinas e resinoides.

Por isso, meu trabalho acabou caminhando para a psicoaromaterapia clínica e para o desenvolvimento de psicoaromas personalizados, pois cada indivíduo possui uma história sensorial, emocional e comportamental muito própria, decorrente do seu ambiente de criação, do desenvolvimento da personalidade, de seus desapontamentos e mágoas, de suas escolhas e renúncias.

Quando falamos dessas áreas de atuação do olfato, estamos falando de sistemas do corpo e da mente, de respostas neuroquímicas e emocionais ativadas pelo olfato. Usar óleos essenciais in natura ou mesmo em perfumes puramente naturais é utilizar a forma mais concentrada da natureza (do ambiente físico) a nosso favor!

Você desenvolveu uma metodologia própria ao aplicar a perfumaria no ambiente escolar. Quais foram os principais resultados observados ao longo desse projeto?

Eu já atendia em consultório muitas queixas de professores, bem como mães que levavam seus adolescentes por diferentes questões. No entanto, observei uma base em comum nesses casos. Logo me surgiu o interesse e a vontade de ver, na prática, como o olfato poderia atuar como ferramenta de suporte para foco, concentração, equilíbrio, organização emocional e aprendizagem de maneira coletiva, e, por esse motivo, em 2015, voltei a lecionar.

O que inicialmente seria um projeto de cinco anos acabou se tornando um trabalho de oito anos, por causa da pandemia, e isso me permitiu observar muitos eixos comparativos entre ambientes com e sem utilização da perfumaria pedagógica personalizada.

Os resultados mais perceptíveis estavam ligados à melhora da concentração, à sensação de acolhimento, à organização emocional e até à mudança na relação dos alunos com determinados momentos da aprendizagem, além de muitas questões pessoais que foram sendo solucionadas ao longo do tempo, conforme relatos dos próprios estudantes.

Mas talvez o mais interessante tenha sido perceber como o ambiente sensorial interfere diretamente no comportamento coletivo. A escola acabou se tornando um grande campo de observação humana e sensorial para mim.

Os dados coletados foram trabalhados em forma de testes A/B, gráficos comparativos e percepções reais trazidas por estudantes do ensino fundamental, médio e EJA, além das especialistas orientadas por mim na sala de recursos. Sinto que cumpri um dever social e comprovei que é possível, sim, realizar intervenções que contribuam, de forma visível e mensurável, para o bem-estar coletivo, transcendendo gênero, idade e posição social.

Em determinado momento, você identifica uma ausência do olfato como ferramenta estratégica no marketing. Como você enxerga hoje o papel do marketing olfativo no Brasil?

Acredito que o marketing olfativo ainda é pouco compreendido no Brasil. Muitas vezes, ele é reduzido apenas à ideia de “perfumar ambientes”, quando, na verdade, estamos falando de percepção, memória, coerência de marca e construção sensorial estratégica e proposital para despertar emoções e gerar atitudes e comportamentos. Foi em 2012 quando fiz minha formação em marketing que notei a mínima importância dada ao olfato. E foi aí então que decidi buscar especificamente pelo marketing olfativo e me especializar nesta área.

O olfato é um dos sentidos mais ligados à memória emocional, então, quando uma marca utiliza essa linguagem de forma estratégica e coerente, ela deixa de atuar apenas visualmente e passa a criar experiência.

Mas acredito que isso precisa ser feito com profundidade. Não basta escolher um aroma agradável ou achar que determinada família olfativa “combina” com a loja ou com determinado ramo de negócio. É preciso entender a identidade da marca, o comportamento do público, a proposta do ambiente e quais sensações aquela experiência pretende sustentar.

Hoje, vejo o olfato como uma das camadas mais sofisticadas da comunicação de marca e, paradoxalmente, é justamente o nosso sentido mais primitivo, e talvez o mais negligenciado ao longo da vida adulta.

Em suma, seja por meio do marketing olfativo ou de assinaturas olfativas, vejo, em ambos os casos, um reposicionamento do olfato ao seu lugar de destaque: o sentido mais emocional de todos, capaz de criar atmosferas desejáveis, diferenciadas, que exalam comunicação não verbal e estratégica.

Seu trabalho mais recente com perfumaria identitária para figuras públicas resgata um aspecto histórico do perfume. O que diferencia uma fragrância comum de uma assinatura olfativa com valor simbólico e representativo?

A assinatura olfativa carrega intenção, narrativa e representação.

Historicamente, o perfume sempre esteve ligado à presença, ao status, à espiritualidade, ao poder e à memória coletiva. Quando desenvolvo uma assinatura identitária, estou criando uma linguagem sensorial que representa história, território, valores e pertencimento coletivo.

Existe uma diferença muito grande entre consumir um perfume e construir uma identidade, uma narrativa olfativa. A identidade precisa sustentar coerência simbólica, emocional e representativa e ativar a emoção que se tornará memória sensorial futura.

Talvez por isso, esse trabalho tenha se conectado tanto comigo, pois, de certa forma, ele resgata exatamente aquelas referências históricas que despertavam meu interesse ainda na adolescência.

Existe diferença entre usar perfume e construir presença olfativa?

Existe uma diferença enorme.

Usar perfume pode ser apenas um hábito. Construir presença olfativa envolve coerência entre identidade, comportamento, ambiente e percepção.

A presença olfativa acontece quando o perfume deixa de ser apenas um acessório e passa a funcionar como uma extensão simbólica da pessoa, quase uma continuidade invisível da sua presença.

Quem sabe seja por isso que algumas pessoas sejam lembradas pelo perfume mesmo muitos anos depois. Não é apenas a fragrância em si. É a associação emocional construída por meio dela.

Toda pessoa é, em si, uma marca, ainda que não queira. A questão é que essa marca pode ser construída de forma intencional na maioria das situações cotidianas, e é isso que ajudo pessoas, empresas e comércios a reconhecerem: não apenas um cheiro, mas o seu significado, sentido e percebido.

Em um mundo extremamente visual e acelerado, por que você acredita que o olfato vem ganhando força novamente?

O olfato tem uma capacidade muito singular: ele nos conecta de forma imediata com percepção, memória e emoção. Além disso, sempre foi um marcador social e de comunicação entre as espécies.

Em um tempo em que tudo acontece com muita velocidade e vivemos em uma sociedade hiperestimulada, acredito que o olfato volta a ganhar força justamente porque nos convida a uma experiência mais profunda e menos automática. E o mais importante: está associado à respiração (e não vivemos sem respirar!), embora possamos viver sem outros sentidos.

O aroma não exige uma explicação racional imediata. Ele comunica sem precisar disputar atenção. Permanece na memória de forma muito íntima e, muitas vezes, revela sensações que a imagem ou a palavra não alcançam com a mesma profundidade.

Talvez por isso o olfato tenha voltado a ocupar um espaço tão relevante. Existe hoje uma busca muito maior por experiências mais autênticas, por identidade e por tudo aquilo que gera conexão real.

E o olfato tem essa potência.

Acredito que, em meio a tanta aceleração, o olfato ganha força porque nos reconecta com percepção, presença e com uma dimensão mais sensível, nativa e verdadeira da experiência humana.

A criação de perfumes personalizados é uma parte importante do seu trabalho. Como funciona o processo de construção de uma identidade olfativa individual?

Para mim, criar um perfume personalizado não começa pela fragrância ou pelas matérias-primas. Começa pela pessoa e pelo seu universo interior.

Eu observo personalidade, comportamento, linguagem, presença, história, preferências, tom de voz, traços pessoais, padrões emocionais e até aquilo que, muitas vezes, a pessoa ainda não consegue expressar conscientemente sobre si mesma, mas já está expressando por meio da linguagem não verbal.

O perfume acaba atuando como uma extensão simbólica dessa identidade ou, em alguns casos, como um reajuste, quando esse é o objetivo, ele passa a funcionar como uma segunda pele. Em algumas situações, reforça características já existentes; em outras, ajuda a reorganizar percepção, presença e até segurança emocional.

Por isso, meu processo dificilmente é apenas técnico. Existe escuta, observação e interpretação humana dentro dele. Após isso, entra a técnica para criar algo verdadeiramente único e especial.

Depois de uma trajetória tão rica e multifacetada, como você define hoje o perfume dentro da sua vida e do seu propósito?

Embora aqui eu tenha apenas apresentado alguns aspectos da minha trajetória e da minha visão sobre o mundo e o perfume nesse contexto, hoje vejo o perfume como linguagem.

Para mim, o perfume sempre foi memória, comportamento e identidade. Quando usamos um perfume que se encaixa com nossa personalidade, nos transformamos e nos sentimos melhor, mais confiantes em nossas potencialidades. É como vestir uma espécie de manto real, mas invisível, que consolida a autopercepção.

A perfumaria me permitiu unir praticamente tudo o que sempre despertou meu interesse: natureza, geografia, comportamento humano, ciência, arte, história, emoção, imaginação, ambiente e simbologia.

E talvez o mais bonito de tudo seja perceber que, no centro de todas as áreas pelas quais passei, elas buscavam compreender a mesma coisa: o ser humano e a forma como ele sente, se relaciona, ocupa e transforma o mundo ao seu redor.

O perfume acabou se tornando minha forma de traduzir isso e, com reverência, me conectar com a perfeição e a essência da criação.

Fotos: Luisa Pretzel
Publisher e Diretor Criativo: Sérgio Oliver
Supervisão de texto: André Terto
Arte gráfica e diagramação: Danni Chris